Textos

O Fator Humano (Afonso Celso)


  • Os tempos da colheita têm trazido à tona, para a percepção e análise consciente de um número cada vez maior de indivíduos, as questões fundamentais das mais diversas áreas de atividade e pensamento humanos, pondo em relevo as concordâncias e oposições essenciais e latentes no bojo de cada manifestação individual ou coletiva. Este estado efervescente e dinâmico de idéias e acontecimentos - catalisado e intensificado de forma extrema pelo desenvolvimento das comunicações, que subitamente transforma todo o planeta em uma única aldeia - sinaliza uma nova etapa na grande aventura da espécie humana sobre a Terra. Uma etapa em que, de forma inédita e sem precedentes, a humanidade terrestre se aproxima de uma assunção consciente da responsabilidade sobre a gestão eco-sócio-econômica do planeta, influindo decisivamente no futuro da própria espécie e de sua morada cósmica, a Terra.



    Neste momento de dramática tensão - que cresce a cada instante -, emergem também as mais profundas indagações e controvérsias sobre aspectos variados da natureza e função metafísica do Homem e da humanidade.



    Há, essencialmente, duas posições filosoficamente antagônicas quanto ao significado de alguns fatos históricos ou míticos, porém concordes, em certa extensão, quanto ao mecanismo ou lei de desenvolvimento desses mesmos fatos.



    Uma postura metafísica - mais tradicional no ocidente e tenazmente pregada pelo maniqueísmo cristão durante séculos - julga a situação humana atual e histórica como a degeneração de um estado divinal de perfeição e fidelidade espontânea às Leis da Criação, em que um dia se encontrou o homem. Nesta interpretação dos acontecimentos primevos, tal degeneração se deu por um estranho e não bem explicado afastamento do homem original em relação à Vontade do Criador. Embora a teologia ortodoxa descreva este estado edênico do homem primordial como possuidor de perfeita harmonia e livre arbítrio - o qual, estranhamente, teria sido submetido a um "teste" de obediência -, tal faculdade não poderia existir antes da possibilidade de escolha intelectual entre o Bem e o Mal. Poder-se-ia imaginar, portanto, um estado inicial de perfeita felicidade e liberdade de devir, porém uma perfeição comparável a de uma colméia, e uma liberdade comparável a de uma abelha. A análise despida de preconceitos e roupagens poéticas da revelação bíblica, evidencia que o cerne deste afastamento ocorreu com o primeiro ato de volição autônomo e não submisso às leis puramente naturais, as leis cósmicas - a Vontade de Deus. Este momento é então simbolizado como o "provar da árvore do Conhecimento" do Bem e do Mal, que transformou a humanidade original em uma raça adâmica ou ahamkárica (o "adam" hebraico deriva do "aham" sânscrito, que significa "eu separado" ou ego). A isto chamou-se então de "Queda" ou "Pecado Original". Como "castigo", derivam deste episódio todos os sofrimentos do homem, que tem agora que lutar pela sobrevivência "com o suor do seu rosto".



    Precisamente neste ponto concorre uma outra percepção ou interpretação metafísica - mais familiar no oriente, onde encontrou expressão nas escrituras sagradas indo-arianas -, que vê o advento do "eu separado" como um processo eficaz e transitório para um nível de manifestação mais elevado do Ser e da Consciência Divina na humanidade nascente. Nesta percepção, o estado primordial de existência inconsciente de si e da Natureza - o paraíso edênico de identidade com o Todo, onde não há sofrimento nem morte porque não há um "si" autoconsciente para experimentá-los -, foi substituído por um princípio de vida autoconsciente e evolvível, através da intervenção ou surgimento de uma nova força ou modo de operação da Natureza naquela humanidade original: um princípio mental e intelectual autodeterminantes, e o conseqüente livre arbítrio. Esta mudança de estágio de desenvolvimento é registrada nas escrituras védicas como o aparecimento do Manu, o Pensador, o Homem por excelência. Tal passagem deixou uma grande marca psíquica na memória subconsciente da humanidade, sentida como uma grande perda de felicidade, pois o fardo de uma percepção de si e da Natureza como realidades distintas é causa de uma profunda solidão, insatisfação e sofrimento. Surgiu ai, pela primeira vez na história humana, o sofrimento existencial de uma consciência individualizada que ignora porque vive e de onde vem sua sede de viver. Não admira que esta passagem dramática à autoconsciência tenha provocado tamanha nostalgia do éden, tão insistentemente evocado pelas religiões arcaicas. Mas com a separatividade do "eu", grandes possibilidades de conhecimento e deleite se abriram para uma porção do Espírito encarnado nesse si individualizado. Tornou-se possível assim um novo, mais rico e complexo, tipo de relacionamento do Espírito (o Purusha) com seu aspecto manifesto - a Matéria (a Prakriti) -, através de um "eu" mentalmente consciente. Um "eu" que a princípio, iludido com sua própria percepção separatista e solitária, luta para existir e afirmar-se isoladamente, e que aos poucos - tal qual o Filho Pródigo -, se apercebe de sua realidade apenas aparente e, finalmente, se subordina inteira e confiantemente ao princípio divino do qual é conseqüência e uma representação externa.



    Qual seria então - dentro desta perspectiva filosófica - a missão real de um "si individual" ou "eu autoconsciente" encobrindo a Realidade do Espírito, encarnando uma porção de Matéria? Qual o justo e verdadeiro papel a ser desempenhado pela Mente ou Intelecto (Budhi) na Criação? Na visão dos rishis (videntes) indianos, a Mente é um nível de manifestação intermediário entre o Espírito e a Matéria, sendo ao mesmo tempo um poder formador e transformador da Matéria, servindo ao propósito da Divindade em Sua automanifestação plena e consciente através de e em todo o Cosmos.



    Voltando então ao ponto de divergência, como julgar ou optar por uma dessas duas posturas metafísicas com respeito a questão tão capital?



    A primeira colocação, que vê o advento da autoconsciência e livre arbítrio como a Grande Queda, tem possibilitado o surgimento de Homens de extrema pureza e santa conduta, ao mesmo tempo que nega e rejeita toda a criação humana e humanista como impregnada da Mácula ou Pecado Original. Fomentando também um dualismo maniqueísta exacerbado, tem levado a loucura, ou enfraquecimento das estruturas e faculdades psicológicas, muitos homens divididos entre os chamados - ditos inconciliáveis - do corpo e da alma, do Espírito e da Matéria, do Bem e do Mal.



    Por outro lado, a posição humanista de fé e celebração pela aventura aparentemente autônoma da consciência humana, tem trazido a luz Personalidades não menos nobres que o santo ascético, um conhecimento e domínio sem precedentes das propriedades da Matéria, um poder para a construção ou destruição jamais experimentado. Fomentando também um individualismo egoísta exacerbado, tem levado ao sofrimento e enfraquecimento das estruturas sociais e ecológicas, uma humanidade que se perde em meio ao fausto das opções de consumo ou em meio à miséria causada pela ambição insaciável de cultores da própria personalidade.



    Se se busca uma resposta ampla e satisfatória para a questão, não devemos recair em nenhum dos dois extremos realçados por posições aparentemente tão antagônicas, mas devemos encontrar uma síntese capaz de justificar e abranger cada uma dessas interpretações e curálas de suas deformações ulteriores. Para encontrar essa Síntese, podemos começar por ampliar nossas noções antropomorfisadas da Divindade, alargando os conceitos de Onipotência - um infinito Poder de ser -, Onisciência - um infinito Conhecimento -, e Bem-Aventurança - um infinito e eterno Deleite. A noção do Infinito, levada até os limites de nossa compreensão, nos impede de imaginar qualquer coisa ou idéia que esteja fora deste Todo Infinito e portanto não sujeita a Sua Lei orgânica de desenvolvimento e manifestação. Um Poder Infinito é a capacidade de manifestar infinitas possibilidades. Se conseguirmos apreender, ainda que vagamente, o sentido da infinitude de Poder e Deleite desta Totalidade Onipotente e Una, se manifestando através de infindáveis formas e intensidades através do Cosmos, não sobrará lugar para uma única cisão em nossa consciência, gerada por um par de opostos quaisquer, por mais absoluta e mutuamente excludentes que pareçam ser.



    "Tudo aquilo para que Vida e Morte foram criados

    deve ser feito". (Sri Aurobindo)



    "Tudo é Deus. Tudo é da natureza de Deus.

    Tudo é necessário". (Aforismo oriental)



    De uma certa perspectiva, a Aventura Humana bem pode ser vista, sentida e compreendida, como mais uma emanação deste infinito Poder de ser, capaz de manifestar-Se através de formações de Matéria e Pensamento virtualmente livres e independentes - em certa extensão aptas até mesmo a Lhe opor tenaz resistência -, apenas para emergir mais tarde com um nível maior de potência e consciência manifestadas através desses mesmos elementos - Matéria e Pensamento -, em consonância com Seus Propósitos.



    Assim, parece não haver oposição ou distinção de ordem ou valor entre a árvore da Vida - que dá origem às Hierarquias Dévicas ou Angélicas, fiéis mantenedoras das energias sutis que sustentam todos os mundos criados -, e a árvore do Conhecimento - da qual emanam as Hierarquias Humanas, destinadas a formação de Deuses cocriadores do Universo. São ambas as árvores, Flores de um mesmo Jardim e Éden, como figura na metáfora mosaica. Jardim por entre as Flores do qual brinca e sopra o Espírito Supremo, eternamente criando novos mundos ou absorvendo, na Potência de Seu Silêncio, galáxias inteiras de uma só vez, quando o tempo de sua Colheita (Pralaia) é chegado.

    ACLW







    "O que, então, foi o começo de tudo isso?

    Uma Existência que se multiplicou por puro deleite de ser

    e se arremeteu em incontáveis trilhões de formas,

    afim de que pudesse encontrar a Si mesma inumeravelmente.

    E o que é o meio?

    Divisão que se esforça em direção a uma Unidade múltipla,

    ignorância que labuta em direção a um Mar de Luz variada,

    dor que moureja em direção ao toque de um inimaginável êxtase.

    E o que é o fim de tudo isso?

    Como se o mel pudesse provar a si mesmo

    e a todas as suas gotas juntas,

    e todas suas gotas pudessem provar uma à outra

    e cada uma toda a colméia como sendo ela mesma,

    assim deveria ser o fim com Deus e a alma do homem e o universo".

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