Textos

Psicanálise , Ciencia e Religião (Afonso Celso)


  • Introdução

    A escolha de um tema sempre sinaliza um desejo. Nesse caso, esse desejo é deliberadamente promover uma aproximação entre Ciência e Religião, percebendo na Psicanálise uma possível mediação entre esses dois domínios legítimos de experiência e conhecimento humanos, mesmo que esse não seja, de forma alguma, seu objetivo precípuo.

    Ao lado disso, além de reservar um considerável espaço para uma motivação inconsciente, pessoal, não posso deixar de vislumbrar também um processo coletivo, histórico, representado no Ocidente pelo domínio da Religião (Mãe) durante a Idade Média, seguido pela intervenção restritiva da Ciência (Pai) no Renascimento, e pelo surgimento posterior de metodologias e relacionamentos interdisciplinares (Psicanálise, de Freud) e transdisciplinares (Psicologia Analítica, de Jung, e Transpessoal, de Stanislav Grof e Ken Wilber), no século XX. Como participante desse contexto histórico, busco também um relacionamento legítimo entre a Religião-Mãe (útero, simbiose, emoção, fé) e a Ciência-Pai (identidade, separação, pensamento, razão).

    Pressupostos

    Para propor uma articulação entre conceitos ou campos de conhecimento tão amplos, indefinidos e muitas vezes conflitantes em suas regiões limítrofes, como o são a Ciência e a Religião, parece ser indispensável, como condição prévia a essa discussão, a exposição dos pressupostos antropológicos sobre os quais se baseia uma tal hipótese. Para tanto utilizo o esquema a seguir, desenvolvido a partir de memoráveis conversas com um senhor chamado José de Oliveira, jornalista, poeta e pensador aracajuano, durante os anos de 1990 a 1992, no espaço de diálogo de uma livraria, em Aracaju, estado de Sergipe.

    Passemos então a comentar o esquema seguinte a partir de seu ponto inicial, a existência pré-humana (ou pré-pessoal), edênica, animal.


    Embora a alegoria do Velho Testamento descreva o estado edênico do homem primordial como possuidor de perfeita harmonia e livre arbítrio, tal faculdade não poderia existir antes da existência de um “eu” autoconsciente. Poder-se-ia imaginar, portanto, um estado inicial de perfeita felicidade e liberdade de devir, porém uma perfeição comparável à de uma colméia, e uma liberdade comparável à de uma abelha. Uma análise antropológica despida de preconceitos e roupagens poéticas do texto bíblico sugere que o cerne do afastamento deste estado teria ocorrido com o primeiro ato de volição autônomo de um “eu” que se vê como ente separado do Todo. Este momento é então simbolizado como o "provar da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal”, que transformou a humanidade original em uma raça adâmica (o "adam" hebraico deriva do sânscrito "Adi Aham", que significa "Primeiro Eu”). A isto chamou-se então de "Queda" ou "Pecado Original".


    É bastante clara a sinalização da metáfora mosaica sobre essa passagem à autoconsciência através da alusão a uma das primeiras percepções do “eu separado”: ...“E Adão respondeu: ‘Ouvi tua voz no Paraíso e tive medo porque estava nu, e escondi-me.’ Disse-lhe Deus: ‘Mas quem te fez conhecer que estavas nu, senão o ter comido da árvore, de que eu tinha ordenado que não comesses?’” (Gn 3, 10:11)


    Precisamente neste ponto concorre uma outra percepção ou interpretação metafísica – mais familiar no oriente, onde encontrou expressão nas escrituras sagradas indo-arianas – , que vê o advento do “eu separado” como um processo eficaz e transitório para um nível de manifestação mais elevado do Ser. Nesta percepção, o estado primordial de existência inconsciente de si e da Natureza - o paraíso edênico de identidade com o Todo, onde não há sofrimento nem morte porque não há um “eu” autoconsciente para experimentá-los -, foi substituído por um princípio de vida autoconsciente e evolvível, através da intervenção ou surgimento de uma nova força ou modo de operação da Natureza naquela humanidade original: um princípio mental e intelectual autodeterminantes, e o conseqüente livre arbítrio. Esta mudança de estágio de desenvolvimento é registrada nas escrituras védicas como o aparecimento do Manu, o Pensador, o Homem por excelência. Tal passagem deixou uma grande marca psíquica na memória subconsciente da humanidade, sentida como uma grande perda de felicidade, pois o fardo de uma percepção do “eu” e da Natureza como realidades distintas é causa de uma profunda solidão, insatisfação e sofrimento. Não admira que esta passagem dramática à autoconsciência tenha provocado tamanha nostalgia do Éden, tão insistentemente evocado pelas religiões arcaicas.


    Poder-se-ia imaginar então duas grandes possibilidades de experimentação para este ente recém manifesto – o “eu”: a percepção das impressões que vêm de fora – tendência centrífuga ou Yang; ou a percepção das impressões que vêm de “dentro” – tendência centrípeta, narcísica, ou Ying. Dessas duas tendências ou movimentos complementares e alternantes no tempo, surgiram estruturas e formas de conhecimento com características bem diferenciadas conforme se vê no esquema apresentado.


    É importante salientar que os “dois caminhos” são processos intensamente dinâmicos e intercambiáveis – tanto em nível de processo individual quanto em nível de processo histórico do mundo –, embora existam cristalizações epistemológicas em cada uma dessas tendências ou formas de busca da Verdade (este, talvez, um dos mais belos ou românticos nomes para o Objeto Perdido).

    Mas, se conseguirmos escapar àquelas cristalizações existentes em cada um dos caminhos – que podem ser entendidas como recursos da Natureza para fixar ou estabilizar determinadas experiências cognitivas ou conteúdos de consciência necessários à evolução da espécie[1] –, poderemos perceber que essas duas abordagens aparentemente opostas e inconciliáveis, quando vistas em conjunto e atuando sobre a humanidade como um todo e ao longo do tempo, capacitam esta mesma humanidade a uma mais ampla e poderosa síntese de percepção, pensamento e realização. Pois através dessa alternância dinâmica de percepção do “fora” (a realidade externa, material) e do “dentro” (a realidade interna, psicológica ou espiritual), do sentir e do pensar, são a cada momento desvelados novos segredos e possibilidades da Natureza que esperam pelo toque inteligente e sensível da Humanidade para serem despertados e usados em uma realização mais plena e integral da Vida.

    Alguns pontos merecem ainda comentário no esquema apresentado acima:

    · a “verdade científica” é consensual, porque baseada na percepção de fenômenos repetitíveis e reproduzíveis por quaisquer observadores “normais”, estatisticamente falando;

    · a “verdade espiritual” é subjetiva, porque baseada na percepção de fenômenos (melhor dizendo, númenos) que só podem ser vivenciados de forma pessoal e intransferível;

    · um dos resultados da Realização Externa (apoiada em tecnologia), seria a generalização de meios de vida materiais para todos os indivíduos da sociedade, removendo assim as causas externas do sofrimento;

    · um dos resultados da Realização Interna (apoiada em identidade com o Todo), seria o poder consolador resultante da remoção das causas internas do sofrimento (a separatividade com respeito ao Todo, o Objeto Perdido);

    · a separatividade entre sujeito e objeto determinada pelo surgimento do “eu” (que “se viu” separado da Natureza), ocasionou, ao mesmo tempo, o início da longa jornada desse “eu” em busca do Objeto Perdido, um movimento inicialmente – e às vezes – incestuoso (regressivo) porém deflagrador de toda a teia de desejos humanos, responsáveis, em última instância, por tudo que foi construído (e destruído) pela humanidade.

    Passos da Ciência

    Neste tópico, é possível observar o quanto a abordagem objetiva da Ciência (foco no fenômeno) tem se aproximado da abordagem subjetiva da Religião ou da Filosofia (foco no númeno), reconhecendo a influência do sujeito sobre sua representação da realidade (enfoque psicanalítico).

    No início do século (1905 a 1915), Einstein demonstra que as entidades primitivas, absolutas e independentes da Física - a Matéria, o Espaço e o Tempo -, são, na realidade, interdependentes: matéria é energia (E=mc2) e o Tempo e o Espaço formam um continum.

    Na década de 20, a Física Quântica choca-se frontalmente com o modelo determinista newtoniano-cartesiano e impõe-se pela aplicabilidade de seus conceitos aos fenômenos observáveis, abrindo uma nova abordagem para entendimento da Natureza, onde seus os elementos “parecem” estar conectados por forças não-locais, independentes da distância que os separam.

    “...as partículas materiais isoladas são abstrações, e suas propriedades são definíveis somente através de sua interação com outros sistemas” - diz Niels Bohr.

    “O mundo apresenta-se, pois, como um complicado tecido de eventos, no qual conexões de diferentes espécies se alternam, se sobrepõem ou se combinam, e desse modo determinam a contextura do todo” - diz Heisenberg.

    A Física Quântica ainda introduz um novo insight, até então não cogitado pela Ciência: o observador influi sobre o observado, a consciência altera o estado da natureza! (ver Princípio das Incertezas, de Heisenberg, e a comprovação experimental do Paradoxo de Einstein-Podolski-Rosen).

    Com esta colocação, a Física Quântica abre espaço para uma nova compreensão da Natureza onde Espaço, Matéria, Tempo e Consciência (ou o Sujeito e sua subjetividade) são aspectos interdependentes e inseparáveis da Realidade.

    Na década de 50, Ludwig von Bertalanffi estruturou uma teoria que fornece elementos para um tratamento matemático dos sistemas em geral, onde a variação no tempo de qualquer uma das variáveis de um dado sistema em observação, é descrita como uma função da variação das demais grandezas observáveis, em relação ao tempo.

    Na década de 60, Geoffrey Chew leva-nos a uma extraordinária abordagem dos fenômenos físicos – a matriz “S” -, onde todos os elementos de um campo qualquer observável são definidos como funções dos demais elementos do campo. Todos os elementos são portanto mutuamente determinantes!

    Na década de 70, o bioquímico James Lovelock e a microbióloga Lynn Margulis, demonstraram que a biosfera parece regular a composição química do ar, a temperatura na superfície da Terra e muitos outros aspectos do ambiente planetário, de forma a maximizar as chances de vida no planeta, funcionando assim como um único organismo vivo. Reconhecendo que sua hipótese representa o renascimento de um poderoso mito antigo, os dois cientistas chamaram-lhe a Hipótese de Gaia, do nome antigo da deusa grega da Terra.

    Nos anos 80, popularizam-se os estudos do físico David Bohm, ex-assistente de Einstein, e do neurocirurgão Karl Pribram, apontando para uma nova síntese conceitual, capaz de reunir ciência, metafísica e experiência espiritual, através do modelo holográfico. Nesta abordagem, todo o Universo pode ser explicado como um holograma, onde cada parte - como em toda holografia -, por menor que seja, contém todas as propriedades e informações básicas do Universo, por ser sempre um aspecto do desdobramento no espaço-tempo de uma só coisa - a “realidade primária”.

    Nos anos 90, popularizam-se os conceitos e princípios decorrentes da visão sistêmica e consciência ecológica. O Holismo e a Ecologia tornaram-se pedra de toque de todas as abordagens científicas, sociais e administrativo-organizacionais.


    Passos da Religião

    Agora vejamos o quanto a Religião tem se detido, desde a Antiguidade, sobre as relações do sujeito com seus desejos, aproximando-a assim do universo de interesse da Psicanálise.

    Considera-se aqui o termo “Religião” em sua acepção essencial de “caminho para religação do Sujeito ao seu Desejo Essencial”. Trata-se de um processo individual distinto do fenômeno de massa, institucionalizado e secularizado, comumente chamado também de “religião”, que normalmente é alienado e alienante – porquanto submete o sujeito a um desejo que não o seu próprio.

    O Bhagavad Gita relata a seguinte fala de Krishna, o grande herói espiritual hindu (que teria vivido a cerca de 3.000 a.C):

    “Melhor é viver segundo a própria consciência, mesmo imperfeitamente, do que guiar-se, com perfeição, pela consciência alheia; melhor é morrer no cumprimento do dever do que viver com temor à mercê de instintos inferiores.” (Bg. 27:35)

    "Quem pensa sempre em objetos sensórios apega-se a eles; desse apego nasce o prazer e o prazer gera inquietação. A inquietação produz ilusão: a ilusão destrói a nitidez da discriminação; e, uma vez destruída a discriminação, esquece-se o homem da sua natureza espiritual - e com isto vai rumo ao abismo." (Bg. 26:62-63)

    “Mas o homem que possui domínio sobre o mundo dos sentidos e da mente, sem odiar nada nem se apegar a nada, orientado pelo Eu central, esse encontra a paz. Essa paz neutraliza todas as inquietações, e o homem que goza de paz goza verdadeira beatitude – e acaba por superar também os males externos.” (Bg. 26:64-65)

    “Impossível a aquisição de sabedoria pela mente descontrolada; impossível a meditação para o homem inquieto! E, se o homem não encontrar a paz dentro de si, como pode ser feliz? O homem sem domínio sobre sua mente e seus sentidos é como um navio levado à mercê das ondas.” (Bg. 26:66-67)

    “Pela prática da abstenção pode alguém amortecer os seus sentidos e torná-los insensíveis aos prazeres sensitivos; mas não se torna necessariamente insensível aos desejos dos mesmos; o desejo dos prazeres sensitivos cessa somente quando o homem entra em contato com o Espírito Supremo dentro dele.” (Bg. 26:59)

    “Quem é externamente inativo, mas cede a desejos internos, esse se ilude a si mesmo. Mas aquele que, pelo poder do Espírito, alcançou domínio sobre seus sentidos e realiza todos os atos externos, ficando internamente desapegado deles – esse homem possui sabedoria.” (Bg. 27:6-7)

    “Quando o homem é perfeitamente liberto de todos os desejos do ego finito e alcançou a paz pela realização do Eu divino, então é um homem de perfeita sabedoria.” (Bg. 26:55)

    “Quem vive na luz da verdade vê Deus em todos os seres - no brâhmane e no cão, no elefante e na vaca, e até no desprezado pária. Os que estão firmes na luz da verdade venceram o mundo, já aqui na terra, pela fé na harmonia universal; porquanto Brahman transcende todas as condições da dualidade, habitando na suprema unidade - quem o conhece repousa em Brahman.” (Bg. 29:18-19)

    “Ele sabe que Eu sou a Essência em todas as existências; Eu, o Imanifesto em todos manifestos; Eu, a suprema e imutável Realidade em todos os mundos em incessante mutação; Eu, refúgio e proteção de todas as criaturas. Quem isto sabe encontrou a paz.” (Bg. 29:29)

    Assim teria falado também Buda (600 a.C):

    “Não deveis crer em algo meramente porque seja dito; nem em tradições porque vêm sendo transmitidas desde a antiguidade; nem em rumores; nem em textos de filósofos, porque foram estes que os escreveram; nem em ilusões supostamente inspiradas por um deva (isto é, através de presumível inspiração espiritual); nem de ilações obtidas de alguma suposição vaga e casual; nem porque pareça ser uma necessidade análoga; nem deveis crer na mera autoridade de vossos instrutores ou mestres. Entretanto, deveis crer, quando o texto, a doutrina, ou os aforismos forem corroborados pela vossa própria razão e consciência. Mas, quando houverdes crido de vossa própria consciência, então devereis agir de conformidade e intensamente.”

    “Duas coisas somente eu ensino: a dor da existência – causada pelo apego, engendrado pelo desejo – , e a cessação da dor – através das Quatro Nobres Verdades.”

    E diria ainda Jesus:

    “O Reino de Deus está dentro de vós”.

    “Pois vim causar divisão entre o homem e seu pai; entre a filha e sua mãe e entre a nora e sua sogra... Assim, os inimigos do homem serão os da sua própria casa.“ (Mt. 10:35-36)

    “Pois quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas quem perder a sua vida por amor de mim, esse a salvará.” (Lc. 9:24)

    Sri Aurobindo Ghose (1875-1950), pensador, poeta e iogue indiano, considerado “a maior síntese Oriente-Ocidente” por Romain Rolland, nos fala de uma forma mais direta:

    “O mundo é rico em escritos sagrados e profanos, em revelações e semi-revelações, em religiões e em filosofias, em seitas, escolas ou sistemas aos quais se vinculam com intolerância e paixão os numerosos espíritos cujo conhecimento é incompleto ou nulo. Eles pretendem que tal ou tal livro seja, ele só, o Verbo eterno de Deus, que todos os outros não passem de imposturas ou sejam, quando muito, imperfeitamente inspirados; eles querem que tal ou tal filosofia seja a última palavra da inteligência racional, que todos os outros sistemas sejam errôneos ou que eles sejam válidos somente para algumas verdades parciais que os ligam ao único culto filosófico verdadeiro. Mesmo as descobertas das ciências físicas foram erigidas em artigos de fé e, em nome dessas ciências, a religião e a espiritualidade foram banidas como obra da ignorância e da superstição, e a filosofia como fora de moda e fantasia. A estas exclusões sectárias e a estas inúteis discussões, os sábios eles mesmos muitas vezes se prestaram, desviados que foram por um espírito obscurantista que, misturando-se à sua luz, a encobriu em uma certa nuvem de egoísmo intelectual ou de orgulho espiritual.”

    “... na exposição da verdade, é inevitável que a forma adequada que lhe é dada, o sistema, a disposição, o modelo metafísico e intelectual e a expressão precisa de que se fez uso, sejam largamente submetidos às variações do tempo e percam sua força. Pois o espírito humano se modifica continuamente; dividindo e reajustando constantemente, ele é obrigado a sempre deslocar suas divisões e recompor suas sínteses; ele deixa continuamente antigas expressões e antigos símbolos por novos, ou então, se ele continua a usar os antigos, muda-lhes o significado ou pelo menos o conteúdo exato e as associações, se bem que não podemos jamais estar certos de compreendermos um antigo livro deste gênero no sentido e no espírito preciso que ele tinha para seus contemporâneos. O que guarda um valor inteiramente permanente, é o que, sendo universal, foi experimentado, vivido e visto por uma faculdade mais alta que o intelecto.”

    “Nós que somos do dia que nasce, nós nos mantemos à frente de uma nova época de desenvolvimento que deve conduzir a uma síntese nova e mais ampla. Nós não somos obrigados a ser ortodoxos vedantas de uma das três escolas, nem tantras, nem a aderir a uma das religiões teístas do passado, nem a nos entrincheirarmos atrás dos quatro muros do ensinamento da Gita. Isto seria limitarmos a nós mesmos, isto seria tentar construir nossa vida espiritual com a ajuda do ser, do conhecimento e da natureza de outros homens, homens do passado, ao invés de edificar com a ajuda do nosso próprio ser e de nossas próprias possibilidades. Nós não pertencemos às auroras passadas, mas aos dias de amanhã.”

    “Uma massa de elementos novos nos penetra; temos não apenas de assimilar as influências das grandes religiões teístas da Índia e do mundo, como a compreensão reencontrada do significado do budismo, mas também levar plenamente em conta as revelações, poderosas ainda que limitadas, do conhecimento e da pesquisa moderna; além disto, o longínquo passado sem idade, que parecia morto, retorna sobre nós, resplandecente de numerosos e luminosos segredos de há muito perdidos para a consciência humana, e que reaparecem detrás do véu. Tudo isto indica uma nova síntese muito vasta e muito rica. Uma nova harmonização, no amplo horizonte de todos nossos proveitos, é uma necessidade ao mesmo tempo intelectual e espiritual do futuro. Mas do mesmo modo que as sínteses do passado tomaram como ponto de partida aquelas que as haviam precedido, do mesmo modo a do futuro, para pisar em terreno sólido, deve proceder das que deixaram no passado os grandes corpos de pensamento e de experiência espirituais realizados.”



    Psicanálise como práxis científica e religiosa

    Se considerarmos a atitude crítica e investigativa da análise, bem como todo o rigor cognitivo envolvido pela teoria psicanalítica, temos sem dúvida uma enorme aproximação com os métodos científicos de obtenção do conhecimento.

    Se, porém, consideramos o objeto de estudo da psicanálise (o Sujeito ou seu Desejo), temos inevitavelmente uma aproximação maior aos processos religiosos, no sentido mais genuíno do termo “religião”.

    Como a Religião, a Psicanálise:

    · Lida com aspectos intangíveis da existência humana (a psique), embora com repercussões bastante concretas no comportamento, saúde e ação do ser humano;

    · Trata das relações de desejo entre o Sujeito (o ser espiritual, na linguagem da Religião) e o Objeto Perdido (a origem do sujeito, o Pai, Deus, na metáfora religiosa), de cuja separação resulta um Vazio – a Falta, como o chamaria Lacan – fonte da angústia existencial que é a “mãe” de todos os desejos;

    · Busca trazer o Sujeito (inconsciente) para a esfera do Ego (consciente), ou facilitar a conciliação entre essas instâncias psíquicas;

    · Tem no diálogo psicanalítico seu cerne, que não é passível de repetibilidade e reprodutibilidade: trata-se de uma experiência vivencial, individual e singular (tão intransferível quanto a experiência mística), embora padrões psíquicos processuais sejam observáveis.

    Como a Ciência, a Psicanálise:

    · Basea-se num conjunto de conceitos, metodologias e práticas passíveis de experimentação por qualquer indivíduo com resultados previsíveis – embora não exatos;

    · Dialoga com outras áreas de pesquisa e conhecimento, sujeitando-se a evolução de modelo conceitual – embora haja controvérsias a esse respeito (!);

    · Permite a troca de conteúdos cognoscíveis através de uma linguagem falada e escrita – embora reconheça a relatividade do significado ao sujeito.

    Porém, é claro, existem também importantes diferenças:

    · A Ciência não considera o objeto da Psicanálise (o Sujeito ou o Desejo, enquanto realidades psíquicas) como fenômeno a ser estudado, porque ele não é passível de experimentação repetível e reproduzível;

    · A Religião não aceita a tese da Psicanálise de que não há possibilidade de reencontro entre o Sujeito e o Objeto Perdido – ao contrário, afirma categoricamente que esse reencontro é não só possível como constitui o sentido subjacente à própria existência humana; diz que esse reencontro não significa um retorno incestuoso ao estágio pré-pessoal, porém a uma capacidade de identificação do “eu” ampliada ao nível da transpessoalidade, permitindo a esse “eu” conhecer todas as coisas e pessoas “por identidade”, sem dissolução da individualidade.

    A Psicanálise, enquanto práxis, portanto, não se submete inteiramente aos ditames da metodologia da Ciência, tanto quanto evita entregar-se ao mergulho no Grande Oceano, proposto pela Religião. Me parece que, justamente por isto, por uma imparcial eqüidistância entre esses dois caminhos, a Psicanálise representa uma possível ponte entre eles, uma terceira posição – neutra, porém radicalmente comprometida com o cerne de ambas as abordagens. Ela não se deixa iludir pela falácia de um conhecimento totalmente objetivo (isento da influência do Sujeito) alardeado pela Ciência, porém não abre mão do rigor da análise racional e lógica. Ela não se permite fascinar pelas visões totalmente subjetivas (de outros Sujeitos) sugeridas pela Religião, porém se interessa essencialmente pelo Sujeito (que a Religião chama de Alma) e seus desejos em demanda do Objeto Perdido (que a Religião chama de Deus).

    Ela, a Psicanálise, nos convida então a nos postarmos em um lugar onde não há segurança nem conforto paliativos – lá onde o Sujeito está, só, diante de seu imperecível desejo pelo Objeto Perdido.



    [1] Ao se admitir a presença de um princípio inteligente e autoregulador nos trabalhos da Natureza, não se incorre aqui naqueles primitivos recursos de antropomorfização do Cosmos, ou mistificação das leis naturais; antes, atende-se à evidência de que não existe sistema fechado ou isolado e que, por conseguinte, todos os sistemas são interligados e interdependentes, constituindo um único sistema dinâmica e organicamente concatenado. E isto não se aplicaria apenas aos sistemas físicos e biológicos, mas também aos sistemas de natureza intelectual e religiosa - por uma simples questão de simetria e uniformidade do critério de análise em uso. Finalmente, seguindo esta mesma regra fundamental, também os sistemas de naturezas diferentes - físicos, biológicos, mentais e espirituais -, são partes inseparáveis de um único sistema, sendo os fenômenos observados em cada campo específico, o resultado de uma complexa teia de interações que envolve todos os sistemas da Natureza. Então, sendo assim, se é verdade que em um ecossistema qualquer está presente um vetor autoregulador e automantenedor do equilíbrio dinâmico do sistema - e isto já foi constatado pela Teoria Geral dos Sistemas (BERTALANFFI, Ludwig) e pela Ecologia -, é inevitável que haja uma mesma força de coesão, ligação e regulação entre todos os processos da Natureza, qualquer que seja o tipo ou categoria de fenômeno envolvido.

Topo do Site