Por Afonso Celso L.
Wanderley
Janeiro, 2005.
![]()
E ele (o ego), se esforça laboriosamente através da vigília
e através do sono para satisfazer a cada um de seus desejos, ora justificando-os
como instintos naturais e intransponíveis, ora vestindo-os em trajes
mais nobres, como algum bem social, moral, científico ou até
mesmo espiritual.
E nessa incessante luta para aplacar a angústia existencial de uma
Falta irreparável, o ego finalmente começa a mostrar sinais
de cansaço, extenuado pelos inúmeros chamados e tensões
gerados pela teia de seus próprios desejos.
E então surgem as “técnicas de sobrevivência” para o claudicante
ego. Sistemas de resignificação, reprogramação,
regressão, re-elaboração, relaxamento. Terapias alternativas,
homeopáticas, alopáticas, hipnóticas e florais, para
atenuar a dor da Grande Falta, para evitar o desespero do confrontamento com
o Vazio – com “o deserto do Real”. Todas essas técnicas fornecem alguma
nova habilidade de sobrevivência ao ego, mas será sempre o ego
o sobrevivente e sujeito do (ou ao) processo, por mais sutil que possa ser
sua forma. São portanto “variações de um mesmo tema”,
e não trarão jamais a plenitude sonhada pelo ego, porquanto
é o mesmo ego que continuará aí, incompleto e carente.
Como ajudar o ego a aceitar sua real condição – ilusória,
impermanente, presa ao infindável ciclo dos desejos –, e o seu terrível
destino – a morte e dissolução em um futuro não muito
distante? Como ajudá-lo a buscar uma relação mais consciente
e livre com todos os desejos e prazeres que lhe são tão queridos?
Somente a vivência exaustiva dos próprios desejos e a conseqüente
percepção decepcionante da repetição interminável
de seu ciclo pode fazer o ego abdicar do desejo – seja por objetos físicos,
emocionais, mentais ou espirituais. Será, entretanto, necessário
não se tornar cínico diante dessa realidade (aceitando-a como
uma condição existencial intransponível), nem fascinado
pelas infinitas possibilidades de metamorfose do ego e de suas criações.
Além disso, haverá sempre a atraente e perigosa sugestão
de que será possível chegar à Plenitude carregando todos
os nossos desejos, nossas “queridas” e seguras maneiras de ser.
Sim, seria dado um grande passo se estivéssemos inteiramente conscientes
da incompletude e impermanência intrínsecas do ego e seus desejos,
de sua total incapacidade de tornar-se lugar de felicidade permanente. Isso
dissolveria naturalmente todas as falsas soluções, todos os
falsos poderes engendrados por nosso desespero desejante. Para esse passo,
muito pode nos ajudar o Bhagavad Gita de Krishna, o ensinamento de Buda, a
mensagem essencial do Evangelho (distinguindo bem esse Evangelho de toda máquina
institucional, política e econômica das religiões que
abraçaram sua mensagem) e as grandes aproximações do
Ocidente aos mistérios da alma: a Psicanálise de Freud, a Psicologia
Analítica de Jung, a Psicologia Transpessoal de Stanislav Groff e de
Ken Wilber.
Um outro grande passo seria dado se aprendêssemos a desaprender tudo
o que vimos no passo anterior, a desapegar-se da segurança do conhecido,
a cultivar uma permanente, atenta e alegre abertura ao Novo, ao Surpreendente,
sem deixar-se fascinar pelos seus encantos e sem, no entanto, ser indiferente
a eles...
Porém, ao primeiro desses “dois passos” reage com todas as forças
o ego humano, apoiado nos sedutores argumentos que sua interminável
teia de paixões engendra a cada instante e na sua inerente necessidade
de sobrevivência... “Como”, diz ele, “viver sem desejar e sem apaixonar-se
pelo objeto desse desejo?!”...
E ao segundo passo resiste de forma sutil – porém quase intransponível
– o último reduto de nossa consciência pessoal, sua forma mais
profunda e poderosa de identificação, que se manifesta através
da aderência a um conhecimento ou sistema de pensamento, à beleza
e harmonia de um conjunto de idéias laboriosamente construído
ao longo da vida, sempre respaldado pela interpretação parcial
e tendenciosa dos fenômenos observados – o “apego noético”.
“O homem ama o sofrimento e protege paternalmente sua dor...”, diz Sri Aurobindo.
Talvez porque mesmo através dessa dor ele esteja buscando uma prova
da realidade de sua própria existência – “Sofro, logo existo!”,
parece ser sua lógica.