Psicanálise, Ciência e Religião
Por Afonso Celso L. Wanderley
Recife, Maio/2004
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Introdução
A escolha de um tema sempre sinaliza um desejo. Nesse
caso, esse desejo é deliberadamente promover uma aproximação entre Ciência e
Religião, percebendo na Psicanálise uma possível mediação entre esses dois
domínios legítimos de experiência e conhecimento humanos, mesmo que esse não
seja, de forma alguma, seu objetivo precípuo.
Ao lado disso, além de reservar um considerável
espaço para uma motivação inconsciente, pessoal, não posso deixar de vislumbrar
também um processo coletivo, histórico, representado no Ocidente pelo domínio
da Religião (Mãe) durante a Idade Média, seguido pela intervenção restritiva da
Ciência (Pai) no Renascimento, e pelo surgimento posterior de metodologias e
relacionamentos interdisciplinares (Psicanálise, de Freud) e transdisciplinares
(Psicologia Analítica, de Jung, e Transpessoal, de Stanislav Grof e Ken
Wilber), no século XX. Como participante desse contexto histórico, busco também
um relacionamento legítimo entre a Religião-Mãe (útero, simbiose,
emoção, fé) e a Ciência-Pai (identidade, separação, pensamento, razão).
Pressupostos
Para propor uma articulação entre conceitos ou campos
de conhecimento tão amplos, indefinidos e muitas vezes conflitantes em suas
regiões limítrofes, como o são a Ciência e a Religião, parece ser
indispensável, como condição prévia a essa discussão, a exposição dos
pressupostos antropológicos sobre os quais se baseia uma tal hipótese. Para
tanto utilizo o esquema a seguir, desenvolvido a partir de memoráveis conversas
com um senhor chamado José de Oliveira, jornalista, poeta e pensador
aracajuano, durante os anos de 1990 a 1992, no espaço de diálogo de uma
livraria, em Aracaju, estado de Sergipe.
Passemos então a comentar o esquema seguinte a partir
de seu ponto inicial, a existência pré-humana (ou pré-pessoal), edênica,
animal.
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Existência
Pré-Humana Existência
edênica, animal, pré-pessoal |
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Existência
Humana Consciência
do “EU”, “fruto da Árvore do Conhecimento”, surgimento
da raça de Adão (do sânscrito Adi Aham = “primeiro eu”). |
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Busca de
Conhecimento Como
busca de representação do Objeto Perdido (o Éden da pré-pessoalidade) Surgimento
do Manu - o Pensador, o Falante (existência pessoal) |
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Impulso
Yang O olhar
para “fora” Palavra e
ação |
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Impulso
Ying O olhar
para “dentro”. Silêncio
e introspecção |
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Percepção
voltada para: Objeto Tu Macro |
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Percepção
voltada para: Sujeito Eu Micro |
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Foco no Fenômeno |
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Foco no Númeno |
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Razão
Pura Conhecimento
a posteriori. |
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Intuição
Pura Conhecimento
a priori. |
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Senso
Comum Baseado
em normalidade. |
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Senso
Individual Baseado
em paranormalidade. |
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Conhecimento
Científico Comprovado
e informado. |
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Conhecimento
Espiritual Revelado
e vivido. |
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Caminho
da “Cabeça” De “Fora”
para “Dentro”. |
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Caminho
do “Coração” De
“Dentro” para “Fora”. |
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Realização
Externa Poder
apoiado em tecnologia - aplicação de leis físicas. |
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Realização
Interna Poder
apoiado na união com o Todo - aplicação de leis espirituais. |
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Realização
Integral Existência Pessoal e Transpessoal |
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Embora a alegoria do Velho Testamento descreva o
estado edênico do homem primordial como possuidor de perfeita harmonia e livre
arbítrio, tal faculdade não poderia existir antes da existência de um “eu”
autoconsciente. Poder-se-ia imaginar, portanto, um estado inicial de perfeita
felicidade e liberdade de devir, porém uma perfeição comparável à de uma
colméia, e uma liberdade comparável à de uma abelha. Uma análise antropológica
despida de preconceitos e roupagens poéticas do texto bíblico sugere que o
cerne do afastamento deste estado teria ocorrido com o primeiro ato de volição
autônomo de um “eu” que se vê como ente separado do Todo. Este momento é então
simbolizado como o "provar da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal”, que
transformou a humanidade original em uma raça adâmica (o "adam"
hebraico deriva do sânscrito "Adi Aham", que significa "Primeiro
Eu”). A isto chamou-se então de "Queda" ou "Pecado
Original".
É
bastante clara a sinalização da metáfora mosaica sobre essa passagem à
autoconsciência através da alusão a uma das primeiras percepções do “eu
separado”: ...“E Adão respondeu: ‘Ouvi tua voz no Paraíso e tive medo porque
estava nu, e escondi-me.’ Disse-lhe Deus: ‘Mas quem te fez conhecer que estavas
nu, senão o ter comido da árvore, de que eu tinha ordenado que não comesses?’”
(Gn 3, 10:11)
Precisamente
neste ponto concorre uma outra percepção ou interpretação metafísica – mais
familiar no oriente, onde encontrou expressão nas escrituras sagradas
indo-arianas – , que vê o advento do “eu separado” como um processo eficaz e
transitório para um nível de manifestação mais elevado do Ser. Nesta percepção,
o estado primordial de existência inconsciente de si e da Natureza - o paraíso
edênico de identidade com o Todo, onde não há sofrimento nem morte porque não
há um “eu” autoconsciente para experimentá-los -, foi substituído por um
princípio de vida autoconsciente e evolvível, através da intervenção ou
surgimento de uma nova força ou modo de operação da Natureza naquela humanidade
original: um princípio mental e intelectual autodeterminantes, e o conseqüente
livre arbítrio. Esta mudança de estágio de desenvolvimento é registrada nas
escrituras védicas como o aparecimento do Manu, o Pensador, o Homem por
excelência. Tal passagem deixou uma grande marca psíquica na memória
subconsciente da humanidade, sentida como uma grande perda de felicidade, pois
o fardo de uma percepção do “eu” e da Natureza como realidades distintas é causa
de uma profunda solidão, insatisfação e sofrimento. Não admira que esta
passagem dramática à autoconsciência tenha provocado tamanha nostalgia do Éden,
tão insistentemente evocado pelas religiões arcaicas.
Poder-se-ia
imaginar então duas grandes possibilidades de experimentação para este ente
recém manifesto – o “eu”: a percepção das impressões que vêm de fora –
tendência centrífuga ou Yang; ou a
percepção das impressões que vêm de “dentro” – tendência centrípeta, narcísica,
ou Ying. Dessas duas tendências ou
movimentos complementares e alternantes no tempo, surgiram estruturas e formas
de conhecimento com características bem diferenciadas conforme se vê no esquema
apresentado.
É
importante salientar que os “dois caminhos” são processos intensamente dinâmicos
e intercambiáveis – tanto em nível de processo individual quanto em nível de
processo histórico do mundo –, embora existam cristalizações epistemológicas em
cada uma dessas tendências ou formas de busca da Verdade (este, talvez, um dos
mais belos ou românticos nomes para o Objeto Perdido).
Mas,
se conseguirmos escapar àquelas cristalizações existentes em cada um dos
caminhos – que podem ser entendidas como recursos da Natureza para fixar ou
estabilizar determinadas experiências cognitivas ou conteúdos de consciência
necessários à evolução da espécie[1]
–, poderemos perceber que essas duas abordagens aparentemente opostas e
inconciliáveis, quando vistas em conjunto e atuando sobre a humanidade como um
todo e ao longo do tempo, capacitam esta mesma humanidade a uma mais ampla e
poderosa síntese de percepção, pensamento e realização. Pois através dessa alternância dinâmica de
percepção do “fora” (a realidade externa, material) e do “dentro” (a realidade
interna, psicológica ou espiritual), do sentir e do pensar, são a cada
momento desvelados novos segredos e possibilidades da Natureza que esperam pelo
toque inteligente e sensível da Humanidade para serem
despertados e usados em uma realização mais plena e integral da Vida.
Alguns
pontos merecem ainda comentário no esquema apresentado acima:
·
a “verdade científica”
é consensual, porque baseada na percepção de fenômenos repetitíveis e
reproduzíveis por quaisquer observadores “normais”, estatisticamente falando;
·
a “verdade espiritual”
é subjetiva, porque baseada na percepção de fenômenos (melhor dizendo, númenos)
que só podem ser vivenciados de forma pessoal e intransferível;
·
um dos resultados da
Realização Externa (apoiada em tecnologia), seria a generalização de meios de
vida materiais para todos os indivíduos da sociedade, removendo assim as causas
externas do sofrimento;
·
um dos resultados da
Realização Interna (apoiada em identidade com o Todo), seria o poder consolador
resultante da remoção das causas internas do sofrimento (a separatividade com
respeito ao Todo, o Objeto Perdido);
·
a separatividade entre
sujeito e objeto determinada pelo surgimento do “eu” (que “se viu” separado da
Natureza), ocasionou, ao mesmo tempo, o início da longa jornada desse “eu” em
busca do Objeto Perdido, um movimento inicialmente – e às vezes – incestuoso
(regressivo) porém deflagrador de toda a teia de desejos humanos, responsáveis,
em última instância, por tudo que foi construído (e destruído) pela humanidade.
Passos da Ciência
Neste tópico, é possível observar o quanto a abordagem
objetiva da Ciência (foco no fenômeno) tem se aproximado da abordagem subjetiva
da Religião ou da Filosofia (foco no númeno), reconhecendo a influência do
sujeito sobre sua representação da realidade (enfoque psicanalítico).
No início do século (1905 a 1915), Einstein demonstra
que as entidades primitivas, absolutas e independentes da Física - a Matéria, o
Espaço e o Tempo -, são, na realidade, interdependentes: matéria é energia
(E=mc2) e o Tempo e o Espaço formam um continum.
Na década de 20, a Física Quântica choca-se
frontalmente com o modelo determinista newtoniano-cartesiano e impõe-se pela
aplicabilidade de seus conceitos aos fenômenos observáveis, abrindo uma nova
abordagem para entendimento da Natureza, onde seus os elementos “parecem” estar
conectados por forças não-locais, independentes da distância que os separam.
“...as partículas materiais isoladas são abstrações,
e suas propriedades são definíveis somente através de sua interação com outros
sistemas” - diz Niels Bohr.
“O mundo apresenta-se, pois, como um complicado
tecido de eventos, no qual conexões de diferentes espécies se alternam, se
sobrepõem ou se combinam, e desse modo determinam a contextura do todo” - diz
Heisenberg.
A Física Quântica ainda introduz um novo insight,
até então não cogitado pela Ciência: o observador influi sobre o observado, a
consciência altera o estado da natureza!
(ver Princípio das Incertezas, de Heisenberg, e a comprovação
experimental do Paradoxo de Einstein-Podolski-Rosen).
Com esta colocação, a Física Quântica abre espaço
para uma nova compreensão da Natureza onde Espaço, Matéria, Tempo e Consciência
(ou o Sujeito e sua subjetividade) são aspectos interdependentes e inseparáveis
da Realidade.
Na década de 50, Ludwig von Bertalanffi estruturou
uma teoria que fornece elementos para um tratamento matemático dos sistemas em
geral, onde a variação no tempo de qualquer uma das variáveis de um dado
sistema em observação, é descrita como uma função da variação das demais
grandezas observáveis, em relação ao tempo.
Na década de 60, Geoffrey Chew leva-nos a uma
extraordinária abordagem dos fenômenos físicos – a matriz “S” -, onde todos os
elementos de um campo qualquer observável são definidos como funções dos demais
elementos do campo. Todos os elementos são portanto mutuamente determinantes!
Na década de 70, o bioquímico James Lovelock e a
microbióloga Lynn Margulis, demonstraram que a biosfera parece regular a
composição química do ar, a temperatura na superfície da Terra e muitos outros
aspectos do ambiente planetário, de forma a maximizar as chances de vida no
planeta, funcionando assim como um único organismo vivo. Reconhecendo que sua
hipótese representa o renascimento de um poderoso mito antigo, os dois
cientistas chamaram-lhe a Hipótese de Gaia, do nome antigo da deusa grega da
Terra.
Nos anos 80, popularizam-se os estudos do físico
David Bohm, ex-assistente de Einstein, e do neurocirurgão Karl Pribram,
apontando para uma nova síntese conceitual, capaz de reunir ciência, metafísica
e experiência espiritual, através do modelo holográfico. Nesta abordagem, todo
o Universo pode ser explicado como um holograma, onde cada parte - como em toda
holografia -, por menor que seja, contém todas as propriedades e informações
básicas do Universo, por ser sempre um aspecto do desdobramento no espaço-tempo
de uma só coisa - a “realidade primária”.
Nos anos 90, popularizam-se os conceitos e princípios
decorrentes da visão sistêmica e consciência ecológica. O Holismo e a Ecologia
tornaram-se pedra de toque de todas as abordagens científicas, sociais e
administrativo-organizacionais.
Passos da Religião
Agora vejamos o quanto a Religião tem se detido,
desde a Antiguidade, sobre as relações do sujeito com seus desejos,
aproximando-a assim do universo de interesse da Psicanálise.
Considera-se aqui o termo “Religião” em sua acepção
essencial de “caminho para religação do
Sujeito ao seu Desejo Essencial”. Trata-se de um processo individual
distinto do fenômeno de massa, institucionalizado e secularizado, comumente
chamado também de “religião”, que normalmente é alienado e alienante –
porquanto submete o sujeito a um desejo que não o seu próprio.
O Bhagavad Gita relata a seguinte fala de Krishna, o
grande herói espiritual hindu (que teria vivido a cerca de 3.000 a.C):
“Melhor é viver segundo a própria consciência, mesmo
imperfeitamente, do que guiar-se, com perfeição, pela consciência alheia;
melhor é morrer no cumprimento do dever do que viver com temor à mercê de
instintos inferiores.” (Bg. 27:35)
"Quem pensa sempre em objetos sensórios apega-se
a eles; desse apego nasce o prazer e o prazer gera inquietação. A inquietação
produz ilusão: a ilusão destrói a nitidez da discriminação; e, uma vez
destruída a discriminação, esquece-se o homem da sua natureza espiritual - e
com isto vai rumo ao abismo." (Bg. 26:62-63)
“Mas o homem que possui domínio sobre o mundo dos
sentidos e da mente, sem odiar nada nem se apegar a nada, orientado pelo Eu
central, esse encontra a paz. Essa paz neutraliza todas as inquietações, e o
homem que goza de paz goza verdadeira beatitude – e acaba por superar também os
males externos.” (Bg. 26:64-65)
“Impossível a aquisição de sabedoria pela mente
descontrolada; impossível a meditação para o homem inquieto! E, se o homem não
encontrar a paz dentro de si, como pode ser feliz? O homem sem domínio sobre
sua mente e seus sentidos é como um navio levado à mercê das ondas.” (Bg.
26:66-67)
“Pela prática da abstenção pode alguém amortecer os
seus sentidos e torná-los insensíveis aos prazeres sensitivos; mas não se torna
necessariamente insensível aos desejos dos mesmos; o desejo dos prazeres
sensitivos cessa somente quando o homem entra em contato com o Espírito Supremo
dentro dele.” (Bg. 26:59)
“Quem é externamente inativo, mas cede a desejos
internos, esse se ilude a si mesmo. Mas aquele que, pelo poder do Espírito,
alcançou domínio sobre seus sentidos e realiza todos os atos externos, ficando
internamente desapegado deles – esse homem possui sabedoria.” (Bg. 27:6-7)
“Quando o homem é perfeitamente liberto de todos os
desejos do ego finito e alcançou a paz pela realização do Eu divino, então é um
homem de perfeita sabedoria.” (Bg. 26:55)
“Quem vive na
luz da verdade vê Deus em todos os seres - no brâhmane e no cão, no elefante e
na vaca, e até no desprezado pária. Os que estão firmes na luz da verdade
venceram o mundo, já aqui na terra, pela fé na harmonia universal; porquanto
Brahman transcende todas as condições da dualidade, habitando na suprema
unidade - quem o conhece repousa em Brahman.” (Bg. 29:18-19)
“Ele sabe que Eu sou a Essência em todas as
existências; Eu, o Imanifesto em todos manifestos; Eu, a suprema e imutável
Realidade em todos os mundos em incessante mutação; Eu, refúgio e proteção de
todas as criaturas. Quem isto sabe encontrou a paz.” (Bg. 29:29)
Assim teria falado também Buda (600 a.C):
“Não deveis crer em algo meramente porque seja dito;
nem em tradições porque vêm sendo transmitidas desde a antiguidade; nem em
rumores; nem em textos de filósofos, porque foram estes que os escreveram; nem
em ilusões supostamente inspiradas por um deva (isto é, através de presumível
inspiração espiritual); nem de ilações obtidas de alguma suposição vaga e
casual; nem porque pareça ser uma necessidade análoga; nem deveis crer na mera
autoridade de vossos instrutores ou mestres. Entretanto, deveis crer, quando o
texto, a doutrina, ou os aforismos forem corroborados pela vossa própria razão
e consciência. Mas, quando houverdes crido de vossa própria consciência, então
devereis agir de conformidade e intensamente.”
“Duas coisas somente eu ensino: a dor da existência –
causada pelo apego, engendrado pelo desejo – , e a cessação da dor – através
das Quatro Nobres Verdades.”
E diria ainda Jesus:
“O Reino de Deus está dentro de vós”.
“Pois vim causar divisão entre o homem e seu pai;
entre a filha e sua mãe e entre a nora e sua sogra... Assim, os inimigos do
homem serão os da sua própria casa.“ (Mt. 10:35-36)
“Pois quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas
quem perder a sua vida por amor de mim, esse a salvará.” (Lc. 9:24)
Sri Aurobindo Ghose (1875-1950), pensador, poeta e
iogue indiano, considerado “a maior síntese Oriente-Ocidente” por Romain
Rolland, nos fala de uma forma mais direta:
“O mundo é rico em escritos sagrados e profanos, em
revelações e semi-revelações, em religiões e em filosofias, em seitas, escolas
ou sistemas aos quais se vinculam com intolerância e paixão os numerosos
espíritos cujo conhecimento é incompleto ou nulo. Eles pretendem que tal ou tal
livro seja, ele só, o Verbo eterno de Deus, que todos os outros não passem de
imposturas ou sejam, quando muito, imperfeitamente inspirados; eles querem que
tal ou tal filosofia seja a última palavra da inteligência racional, que todos
os outros sistemas sejam errôneos ou que eles sejam válidos somente para
algumas verdades parciais que os ligam ao único culto filosófico verdadeiro.
Mesmo as descobertas das ciências físicas foram erigidas em artigos de fé e, em
nome dessas ciências, a religião e a espiritualidade foram banidas como obra da
ignorância e da superstição, e a filosofia como fora de moda e fantasia. A
estas exclusões sectárias e a estas inúteis discussões, os sábios eles mesmos
muitas vezes se prestaram, desviados que foram por um espírito obscurantista
que, misturando-se à sua luz, a encobriu em uma certa nuvem de egoísmo
intelectual ou de orgulho espiritual.”
“... na exposição da verdade, é inevitável que a
forma adequada que lhe é dada, o sistema, a disposição, o modelo metafísico e
intelectual e a expressão precisa de que se fez uso, sejam largamente
submetidos às variações do tempo e percam sua força. Pois o espírito humano se
modifica continuamente; dividindo e reajustando constantemente, ele é obrigado
a sempre deslocar suas divisões e recompor suas sínteses; ele deixa
continuamente antigas expressões e antigos símbolos por novos, ou então, se ele
continua a usar os antigos, muda-lhes o significado ou pelo menos o conteúdo
exato e as associações, se bem que não podemos jamais estar certos de
compreendermos um antigo livro deste gênero no sentido e no espírito preciso
que ele tinha para seus contemporâneos. O que guarda um valor inteiramente
permanente, é o que, sendo universal, foi experimentado, vivido e visto por uma
faculdade mais alta que o intelecto.”
“Nós que somos do dia que nasce, nós nos mantemos à
frente de uma nova época de desenvolvimento que deve conduzir a uma síntese
nova e mais ampla. Nós não somos obrigados a ser ortodoxos vedantas de uma das
três escolas, nem tantras, nem a aderir a uma das religiões teístas do passado,
nem a nos entrincheirarmos atrás dos quatro muros do ensinamento da Gita. Isto
seria limitarmos a nós mesmos, isto seria tentar construir nossa vida
espiritual com a ajuda do ser, do conhecimento e da natureza de outros homens,
homens do passado, ao invés de edificar com a ajuda do nosso próprio ser e de
nossas próprias possibilidades. Nós não pertencemos às auroras
passadas, mas aos dias de amanhã.”
“Uma massa de elementos novos nos penetra; temos não
apenas de assimilar as influências das grandes religiões teístas da Índia e do
mundo, como a compreensão reencontrada do significado do budismo, mas também
levar plenamente em conta as revelações, poderosas ainda que limitadas, do
conhecimento e da pesquisa moderna; além disto, o longínquo passado sem idade,
que parecia morto, retorna sobre nós, resplandecente de numerosos e luminosos
segredos de há muito perdidos para a consciência humana, e que reaparecem
detrás do véu. Tudo isto indica uma nova síntese muito vasta e muito rica. Uma
nova harmonização, no amplo horizonte de todos nossos proveitos, é uma
necessidade ao mesmo tempo intelectual e espiritual do futuro. Mas do mesmo
modo que as sínteses do passado tomaram como ponto de partida aquelas que as
haviam precedido, do mesmo modo a do futuro, para pisar em terreno sólido, deve
proceder das que deixaram no passado os grandes corpos de pensamento e de
experiência espirituais realizados.”
Psicanálise como práxis científica e religiosa
Se considerarmos a atitude crítica e investigativa da
análise, bem como todo o rigor cognitivo envolvido pela teoria psicanalítica,
temos sem dúvida uma enorme aproximação com os métodos científicos de obtenção
do conhecimento.
Se, porém, consideramos o objeto de estudo da
psicanálise (o Sujeito ou seu Desejo), temos inevitavelmente uma aproximação
maior aos processos religiosos, no sentido mais genuíno do termo “religião”.
Como a Religião, a Psicanálise:
·
Lida com aspectos
intangíveis da existência humana (a psique), embora com repercussões bastante
concretas no comportamento, saúde e ação do ser humano;
·
Trata das relações de
desejo entre o Sujeito (o ser espiritual, na linguagem da Religião) e o Objeto
Perdido (a origem do sujeito, o Pai, Deus, na metáfora religiosa), de cuja
separação resulta um Vazio – a Falta, como o chamaria Lacan – fonte da angústia
existencial que é a “mãe” de todos os desejos;
·
Busca trazer o Sujeito
(inconsciente) para a esfera do Ego (consciente), ou facilitar a conciliação
entre essas instâncias psíquicas;
·
Tem no diálogo
psicanalítico seu cerne, que não é passível de repetibilidade e
reprodutibilidade: trata-se de uma experiência vivencial, individual e singular
(tão intransferível quanto a experiência mística), embora padrões psíquicos
processuais sejam observáveis.
Como a Ciência, a Psicanálise:
·
Basea-se num conjunto
de conceitos, metodologias e práticas passíveis de experimentação por qualquer
indivíduo com resultados previsíveis – embora não exatos;
·
Dialoga com outras
áreas de pesquisa e conhecimento, sujeitando-se a evolução de modelo conceitual
– embora haja controvérsias a esse respeito (!);
·
Permite a troca de
conteúdos cognoscíveis através de uma linguagem falada e escrita – embora
reconheça a relatividade do significado ao sujeito.
Porém, é claro, existem também importantes
diferenças:
·
A Ciência não considera
o objeto da Psicanálise (o Sujeito ou o Desejo, enquanto realidades psíquicas)
como fenômeno a ser estudado, porque ele não é passível de experimentação
repetível e reproduzível;
·
A Religião não aceita a
tese da Psicanálise de que não há possibilidade de reencontro entre o Sujeito e
o Objeto Perdido – ao contrário, afirma categoricamente que esse reencontro é
não só possível como constitui o sentido subjacente à própria existência
humana; diz que esse reencontro não significa um retorno incestuoso ao estágio
pré-pessoal, porém a uma capacidade de identificação do “eu” ampliada ao nível
da transpessoalidade, permitindo a esse “eu” conhecer todas as coisas e pessoas
“por identidade”, sem dissolução da individualidade.
A Psicanálise, enquanto práxis, portanto, não se
submete inteiramente aos ditames da metodologia da Ciência, tanto quanto evita
entregar-se ao mergulho no Grande Oceano, proposto pela Religião. Me parece
que, justamente por isto, por uma imparcial eqüidistância entre esses dois
caminhos, a Psicanálise representa uma possível ponte entre eles, uma terceira
posição – neutra, porém radicalmente comprometida com o cerne de ambas as
abordagens. Ela não se deixa iludir pela falácia de um conhecimento totalmente
objetivo (isento da influência do Sujeito) alardeado pela Ciência, porém não
abre mão do rigor da análise racional e lógica. Ela não se permite fascinar
pelas visões totalmente subjetivas (de outros Sujeitos) sugeridas pela
Religião, porém se interessa essencialmente pelo Sujeito (que a Religião chama
de Alma) e seus desejos em demanda do Objeto Perdido (que a Religião chama de
Deus).
Ela, a Psicanálise, nos convida então a nos postarmos
em um lugar onde não há segurança nem conforto paliativos – lá onde o Sujeito
está, só, diante de seu imperecível desejo pelo Objeto Perdido.
[1]
Ao se admitir a presença de um
princípio inteligente e autoregulador nos trabalhos da Natureza, não se incorre
aqui naqueles primitivos recursos de antropomorfização do Cosmos, ou
mistificação das leis naturais; antes, atende-se à evidência de que não existe
sistema fechado ou isolado e que, por conseguinte, todos os sistemas são
interligados e interdependentes, constituindo um único sistema dinâmica e
organicamente concatenado. E isto não se aplicaria apenas aos sistemas físicos
e biológicos, mas também aos sistemas de natureza intelectual e religiosa - por
uma simples questão de simetria e uniformidade do critério de análise em uso.
Finalmente, seguindo esta mesma regra fundamental, também os sistemas de
naturezas diferentes - físicos, biológicos, mentais e espirituais -, são partes
inseparáveis de um único sistema, sendo os fenômenos observados em cada campo
específico, o resultado de uma complexa teia de interações que envolve todos os
sistemas da Natureza. Então, sendo assim, se é verdade que em um ecossistema
qualquer está presente um vetor autoregulador e automantenedor do equilíbrio
dinâmico do sistema - e isto já foi constatado pela Teoria Geral dos Sistemas
(BERTALANFFI, Ludwig) e pela Ecologia -, é inevitável que haja uma mesma força
de coesão, ligação e regulação entre todos os processos da Natureza, qualquer
que seja o tipo ou categoria de fenômeno envolvido.