![]()
Em busca de crescimento ou
simples sobrevivência em meio às enormes dificuldades e rápidas mudanças de cenário atualmente reinantes, as empresas têm resgatado
muito dos valores essenciais da natureza e convívio humanos, obedecendo – como
que “sem querer” – às leis inexoráveis da vida, expressas através das
necessidades físicas, emocionais e intelectuais básicas do ser humano.
Desde a revolução industrial, o homem iniciou sua
migração de um ambiente de trabalho familiar, no qual geralmente dominava toda
a cadeia de produção e às vezes até a comercialização de seus produtos, para um
ambiente industrial, em que é parte de uma engrenagem da qual conhece apenas e
parcialmente um pequeno elo da cadeia de produção, conhece pouco ou nada sobre
a cadeia de comercialização, e menos ainda sobre os fatores econômicos
intervenientes.
Era previsível que tal modelo, embora responsável
por um ciclo de crescimento econômico e desenvolvimento tecnológico sem
precedentes na história da civilização, não fosse plenamente bem sucedido em
atender às demandas psicossociais de toda a sociedade
de forma permanente. Como manter e sustentar a saúde física e mental de pessoas
– das quais depende, em última análise, a vitalidade do próprio mercado (exceto
o farmacêutico!) – submetendo-as a uma condição de trabalho intrinsecamente
contraditória à sua própria natureza? Como é possível alguém viver a maior
parte de seu tempo imerso em uma atividade com a qual
pouco ou nada se identifica, pois não conhece devidamente o seu “porquê”, o seu
“como”, nem participa das conseqüências de seus resultados? Será o salário uma
compensação justa e suficiente para uma cisão tão violenta entre “vida pessoal”
e “trabalho”? Será o salário uma compensação justa e suficiente para a
utilização do ser humano como “coisa” ou “objeto” em um empreendimento do qual
não participa como “sujeito” das decisões ou de seus resultados?
Terapeutas, humanistas e pesquisadores são unânimes em
afirmar que o salário, quando diretamente associado à sobrevivência física, só
satisfaz plenamente àquela camada social que vive marginalmente na miséria
econômica ou intelectual. Para a grande parte da população economicamente ativa
e socialmente ajustada, entretanto, o salário
é apenas um dos estímulos para o trabalho – como já foi demonstrado através
de pesquisas realizadas em todo o mundo. E como, então, conciliar a necessidade
crescente de produtividade e competitividade empresarial – que compele as
pessoas aos seus limites de eficiência e eficácia – com as necessidades psicossociais básicas dessas mesmas pessoas?
Surgiram desse impasse diversas abordagens ou
técnicas administrativas que – intencionalmente ou não – resgataram um pouco
daquela primitiva integridade existente entre homem e trabalho da era
pré-latifundiária e pré-industrial. Ferramentas e metodologias inicialmente
focadas em qualidade de produto evoluíram para abordagens mais sistêmicas,
holísticas e ecológicas, passando a focar a qualidade de vida como importante
fator de produção, a participação nas decisões como condição sine qua non para um efetivo envolvimento e engajamento nos
objetivos do negócio, o resgate do humor e do lazer dentro do próprio ambiente
de trabalho como meios de restaurar e liberar a produtividade e criatividade
das pessoas, a aprendizagem como objetivo permanente para organizações e
pessoas, onde até os erros podem ser premiados. Por último, porém não menos
importante, temos assistido à crescente adesão das grandes e médias empresas a
mecanismos de participação de lucro para seus empregados, bem como a atividades
de caráter filantrópico ou ecológico.
Tudo isso, dizem os consultores e os modernos
empresários, tem contribuído significativamente para a melhoria de desempenho
global das próprias empresas, devido ao maior engajamento das pessoas em
atividades nas quais reconhecem um sentido, utilidade e mérito eticamente
superiores e com os quais, consequentemente, se
identificam.
Certo! Tudo isso é verdade porém...
mesmo naqueles empreendimentos classificáveis como de
capital intensivo – para os quais as novas tendências administrativas não são ainda imperativas, onde grandes
recursos podem ser aplicados em tecnologia e onde tal tecnologia pode realizar
com eficiência o trabalho anteriormente realizado por pessoas – já se verifica
que todo esse conjunto de técnicas integrativas, de caráter sistêmico,
holístico e mesmo ecológico, perde significação e poder de transformação quando
é utilizado pela empresa meramente como meio de alavancagem
do negócio ou peça de marketing
interno ou externo.
Para um número cada vez
maior de indivíduos sensíveis e criativos, se a empresa utiliza um tal conjunto
de ações apenas como técnica para melhoria dos resultados financeiros do negócio,
sem demonstrar consistência ou coerência ética nas ações pessoais de seus
dirigentes, nem em seus objetivos mais estratégicos, torna-se evidente o
caráter utilitarista e manipulador das intenções em jogo. E – felizmente ou
infelizmente –, também para um número cada vez maior de pessoas (e isto constitui uma
tendência global!), toda manipulação – intencional ou não intencional –, toda forma de poder imposto por um
indivíduo ou organização sobre outro indivíduo, sem seu assentimento
consciente, é uma forma de ação antiética, incapaz de atrair adesão ou
engajamento espontâneo, genuíno, do indivíduo assim submetido.
Torna-se, portanto, mais e
mais evidente que o emprego da boa técnica administrativa, por si somente, não
é capaz de efetivar aquelas tão almejadas mudanças redentoras na maioria dos
ambientes organizacionais. Caso tal técnica não seja suportada por uma conduta
ética, firmemente coerente com o discurso promulgado – tanto por parte da
empresa como, pessoalmente, por
parte de seus principais executivos ou representantes –, todo o investimento em
treinamento, programas de qualidade ou modernização de gestão, tende a ser
parcamente compensado no médio e longo prazos. A
técnica sem ética pode trazer grandes e rápidos resultados, porém com
considerável risco de descontinuidade no médio e longo prazos.
A técnica quando aplicada com ética pode
trazer resultados significativos e auto-sustentáveis em um amplo horizonte de tempo1.
Ser ou não ser pessoalmente coerente e comprometido com a técnica ou
discurso promulgado, passa a ser então uma questão capital para o empreendedor ou
executivo no cenário atual, já que o simples patrocínio financeiro ou alocação
dos melhores recursos técnicos de consultoria – quer seja interna
ou externa – não garantem um bom resultado. A exigência dessa autoconsistência ética ou coerência intrínseca vale não só para os empresários ou executivos,
mas também para a atividade consultiva. Muitas empresas de consultoria ficaram
milionárias com a venda de técnicas e soluções administrativas, obtidas através
de efeitos especiais em apresentações impecáveis, deixando
entretanto um rastro de empresas e executivos frustrados com respeito
aos resultados esperados – rastro que só não é mais aparente pelo pudor desses
mesmos executivos quanto à exposição de suas falhas de planejamento
estratégico.
Nos casos especiais das consultorias internas, onde grupos de trabalho são constituídos por aqueles colaboradores mais talentosos em algumas habilidades específicas, a necessidade de coerência intrínseca da equipe com o discurso promulgado torna-se de capital importância para a credibilidade e durabilidade das mudanças propostas.
Os
conflitos entre a técnica em gestão organizacional – bem como a tecnologia (e
principalmente, neste momento, a biotecnologia) – e a ética individual, social
e ambiental, tendem a ser a pedra de toque para consultores organizacionais,
empresas e sociedade em geral, no novo milênio. Alguns princípios norteadores,
entretanto, já se manifestam como tendências globais: preservação da ética,
busca de coerência intrínseca (entre intenção e ação), soluções sustentáveis2, processos autopoiéticos3,
cooperatividade (em lugar de competitividade), holoarquia (em lugar de hierarquia), comunicação plena e
transparente, maior participação possível dos indivíduos afetados pelos
projetos nas fases criativas e ideacionais desses
mesmos projetos.
Notas: 1. Conforme “Build to Last” (Feitas Para Durar) escrito pelo consultor James C. Collins e pelo professor Jerry I.
Porras, da Universidade de Stanford.
2. “Uma sociedade (ou organização) sustentável é aquela que satisfaz suas necessidades sem diminuir as
perspectivas das gerações futuras” – Lester Brown, do Worldwatch Institute.
3. Processos que tendem a se perpetuarem ou mesmo se expandirem com o tempo, através de mudanças
e adaptações espontâneas.