Técnica e Ética em Gestão Organizacional

Por Afonso Celso de Lima Wanderley

Novembro/99

 

 

Em busca de crescimento ou simples sobrevivência em meio às enormes dificuldades e rápidas mudanças de cenário atualmente reinantes, as empresas têm resgatado muito dos valores essenciais da natureza e convívio humanos, obedecendo – como que “sem querer” – às leis inexoráveis da vida, expressas através das necessidades físicas, emocionais e intelectuais básicas do ser humano.

 

Desde a revolução industrial, o homem iniciou sua migração de um ambiente de trabalho familiar, no qual geralmente dominava toda a cadeia de produção e às vezes até a comercialização de seus produtos, para um ambiente industrial, em que é parte de uma engrenagem da qual conhece apenas e parcialmente um pequeno elo da cadeia de produção, conhece pouco ou nada sobre a cadeia de comercialização, e menos ainda sobre os fatores econômicos intervenientes.

 

Era previsível que tal modelo, embora responsável por um ciclo de crescimento econômico e desenvolvimento tecnológico sem precedentes na história da civilização, não fosse plenamente bem sucedido em atender às demandas psicossociais de toda a sociedade de forma permanente. Como manter e sustentar a saúde física e mental de pessoas – das quais depende, em última análise, a vitalidade do próprio mercado (exceto o farmacêutico!) – submetendo-as a uma condição de trabalho intrinsecamente contraditória à sua própria natureza? Como é possível alguém viver a maior parte de seu tempo imerso em uma atividade com a qual pouco ou nada se identifica, pois não conhece devidamente o seu “porquê”, o seu “como”, nem participa das conseqüências de seus resultados? Será o salário uma compensação justa e suficiente para uma cisão tão violenta entre “vida pessoal” e “trabalho”? Será o salário uma compensação justa e suficiente para a utilização do ser humano como “coisa” ou “objeto” em um empreendimento do qual não participa como “sujeito” das decisões ou de seus resultados?

 

Terapeutas, humanistas e pesquisadores são unânimes em afirmar que o salário, quando diretamente associado à sobrevivência física, só satisfaz plenamente àquela camada social que vive marginalmente na miséria econômica ou intelectual. Para a grande parte da população economicamente ativa e socialmente ajustada, entretanto, o salário é apenas um dos estímulos para o trabalho – como já foi demonstrado através de pesquisas realizadas em todo o mundo. E como, então, conciliar a necessidade crescente de produtividade e competitividade empresarial – que compele as pessoas aos seus limites de eficiência e eficácia – com as necessidades psicossociais básicas dessas mesmas pessoas?

 

Surgiram desse impasse diversas abordagens ou técnicas administrativas que – intencionalmente ou não – resgataram um pouco daquela primitiva integridade existente entre homem e trabalho da era pré-latifundiária e pré-industrial. Ferramentas e metodologias inicialmente focadas em qualidade de produto evoluíram para abordagens mais sistêmicas, holísticas e ecológicas, passando a focar a qualidade de vida como importante fator de produção, a participação nas decisões como condição sine qua non para um efetivo envolvimento e engajamento nos objetivos do negócio, o resgate do humor e do lazer dentro do próprio ambiente de trabalho como meios de restaurar e liberar a produtividade e criatividade das pessoas, a aprendizagem como objetivo permanente para organizações e pessoas, onde até os erros podem ser premiados. Por último, porém não menos importante, temos assistido à crescente adesão das grandes e médias empresas a mecanismos de participação de lucro para seus empregados, bem como a atividades de caráter filantrópico ou ecológico.

 

Tudo isso, dizem os consultores e os modernos empresários, tem contribuído significativamente para a melhoria de desempenho global das próprias empresas, devido ao maior engajamento das pessoas em atividades nas quais reconhecem um sentido, utilidade e mérito eticamente superiores e com os quais, consequentemente, se identificam.

 


Certo! Tudo isso é verdade porém... mesmo naqueles empreendimentos classificáveis como de capital intensivo – para os quais as novas tendências administrativas não são ainda imperativas, onde grandes recursos podem ser aplicados em tecnologia e onde tal tecnologia pode realizar com eficiência o trabalho anteriormente realizado por pessoas – já se verifica que todo esse conjunto de técnicas integrativas, de caráter sistêmico, holístico e mesmo ecológico, perde significação e poder de transformação quando é utilizado pela empresa meramente como meio de alavancagem do negócio ou peça de marketing interno ou externo.

Para um número cada vez maior de indivíduos sensíveis e criativos, se a empresa utiliza um tal conjunto de ações apenas como técnica para melhoria dos resultados financeiros do negócio, sem demonstrar consistência ou coerência ética nas ações pessoais de seus dirigentes, nem em seus objetivos mais estratégicos, torna-se evidente o caráter utilitarista e manipulador das intenções em jogo. E – felizmente ou infelizmente –, também para um número cada vez maior de pessoas (e isto  constitui uma tendência global!), toda manipulação – intencional ou não intencional –, toda forma de poder imposto por um indivíduo ou organização sobre outro indivíduo, sem seu assentimento consciente, é uma forma de ação antiética, incapaz de atrair adesão ou engajamento espontâneo, genuíno, do indivíduo assim submetido.

Torna-se, portanto, mais e mais evidente que o emprego da boa técnica administrativa, por si somente, não é capaz de efetivar aquelas tão almejadas mudanças redentoras na maioria dos ambientes organizacionais. Caso tal técnica não seja suportada por uma conduta ética, firmemente coerente com o discurso promulgado – tanto por parte da empresa como, pessoalmente, por parte de seus principais executivos ou representantes –, todo o investimento em treinamento, programas de qualidade ou modernização de gestão, tende a ser parcamente compensado no médio e longo prazos. A técnica sem ética pode trazer grandes e rápidos resultados, porém com considerável risco de descontinuidade no médio e longo prazos. A técnica quando aplicada com ética pode trazer resultados significativos e auto-sustentáveis em um amplo horizonte de tempo1.

Ser ou não ser pessoalmente coerente e comprometido com a técnica ou discurso promulgado, passa a ser então uma questão capital para o empreendedor ou executivo no cenário atual, já que o simples patrocínio financeiro ou alocação dos melhores recursos técnicos de consultoria – quer seja interna ou externa – não garantem um bom resultado. A exigência dessa autoconsistência ética ou coerência intrínseca vale não só para os empresários ou executivos, mas também para a atividade consultiva. Muitas empresas de consultoria ficaram milionárias com a venda de técnicas e soluções administrativas, obtidas através de efeitos especiais em apresentações impecáveis, deixando entretanto um rastro de empresas e executivos frustrados com respeito aos resultados esperados – rastro que só não é mais aparente pelo pudor desses mesmos executivos quanto à exposição de suas falhas de planejamento estratégico.

Nos casos especiais das consultorias internas, onde grupos de trabalho são constituídos por aqueles colaboradores mais talentosos em algumas habilidades específicas, a necessidade de coerência intrínseca da equipe com o discurso promulgado torna-se de capital importância para a credibilidade e durabilidade das mudanças propostas.

Os conflitos entre a técnica em gestão organizacional – bem como a tecnologia (e principalmente, neste momento, a biotecnologia) – e a ética individual, social e ambiental, tendem a ser a pedra de toque para consultores organizacionais, empresas e sociedade em geral, no novo milênio. Alguns princípios norteadores, entretanto, já se manifestam como tendências globais: preservação da ética, busca de coerência intrínseca (entre intenção e ação), soluções sustentáveis2, processos autopoiéticos3, cooperatividade (em lugar de competitividade), holoarquia (em lugar de hierarquia), comunicação plena e transparente, maior participação possível dos indivíduos afetados pelos projetos nas fases criativas e ideacionais desses mesmos projetos.

 

Notas:    1. Conforme “Build to Last” (Feitas Para Durar) escrito pelo consultor James C. Collins e pelo professor Jerry I.

    Porras, da Universidade de Stanford.

2. “Uma sociedade (ou organização) sustentável é aquela que satisfaz suas necessidades sem diminuir as

     perspectivas das gerações futuras” – Lester Brown, do Worldwatch Institute.

3. Processos que tendem a se perpetuarem ou mesmo se expandirem com o tempo, através de mudanças

    e adaptações espontâneas.