XADREZ

 

ARQUETÍPICO

 

 

por Afonso Celso de Lima Wanderley

Aracaju, 1990


Introdução

 

Há na Natureza um conjunto de princípios básicos e simples através dos quais ela realiza seus trabalhos no Universo. Tais princípios - pequenos em número, grandes em poder de combinação e materialização de forças muito sutis - se revestem de maneiras tão diversas quanto são diversos os tipos de materiais ou energias disponíveis no Cosmos. Esses modos básicos, recorrentes, de operação da Natureza foram precisamente observados e classificados pela penetrante visão e pensamento espiritual do Leste, tendo sido especialmente coligidos e preservados na filosofia do taoísmo chinês (Ying-Yang).

 

Os princípios de polarização dual, da formação de centros de energia/matéria a partir do movimento rotacional de um conjugado de opostos, da pulsação periódica dos movimentos de concentração e expansão, da formação, estabilização e dissolução de estruturas materiais ou energéticas cada vez mais complexas, são facilmente observáveis em todos os processos e atividades da Natureza. Há uma quase infinita variedade de intensidades e materiais em uso, porém os princípios básicos são sempre os mesmos. Toda a imensa e complexa harmonia do Cosmos se apóia em apenas umas poucas regras simples e extremamente poderosas.

 

A percepção ainda que parcial dessa unicidade de princípios presente em todas as manifestações, fornece uma ferramenta extremamente eficiente para a compreensão e previsão dos fenômenos observáveis: a Lei da Analogia. O pensamento analógico tem sido utilizado largamente pela ciência ocidental na pesquisa e formulação de leis da Natureza, sobretudo na Física onde muitas vezes serviu de suporte à elaboração de conceitos somente verificados ou comprovados bem mais tarde no tempo. O método analógico, entretanto, teve sua aplicação gradativamente restringida em favor do raciocínio dedutivo durante o período de recrudescimento do positivismo científico, devido principalmente às possibilidades de documentação matemática das fases intermediárias do processo dedutivo. Isto tornou-se vital para a epistemologia do método cartesiano de inquirição e observação científica. Os "saltos" permitidos através da analogia foram, então, sistematicamente evitados pela ciência acadêmica sob o pretexto de fidelidade ao método científico preconizado por Decartes, generalizado como modelo ideal e oficial da, assim chamada, "postura científica". Em outras áreas do pensamento humano, entretanto, o método analógico preexistiu e existe como instrumento indispensável para a compreensão mais profunda dos processos da Natureza, revelando sempre o caráter essencial e sintético de seus movimentos. Essas áreas, consideradas "alternativas" ou marginais pela ciência ortodoxa, referem-se aos aspectos psicológicos ou idealistas mais profundos da natureza humana. Situam-se nesse delicado terreno a Metafísica, a Psicologia Transpessoal e Arquetípica, o Ocultismo e o pensamento espiritual do Leste.

 

 

O Xadrez como Arquétipo

 

O vigor, duração e permanência de toda criação humana depende, essencialmente, do seu grau de vinculação ou embasamento naqueles princípios universais de operação da Natureza. Uma obra de arte, um texto ou um jogo somente permanecem no tempo quando expressam formalmente ou são o resultado de uma profunda identificação com as leis gerais da Vida. Mesmo quando se trata de uma expressão individual, ela se perpetua quando decorre de um mergulho nas raízes universais do pensamento ou emoção humanos.

 

Neste sentido, o estudo do simbolismo oculto em todos os mitos arcaicos ou jogos da antigüidade que chegaram até os dias atuais, transforma-se em inestimável fonte de conhecimento a respeito das leis e movimentos universais, pois tais mitos e jogos constituem-se em arquétipos (símbolos ou conjunto de símbolos) que representam aplicações especiais das leis fundamentais do Cosmos, ou relatam acontecimentos marcantes do inconsciente coletivo da humanidade.

 

O estudo dos arquétipos ou "clichês" contidos nos contos de fadas, nos jogos em geral (especialmente os de cartas, oriundos do Tarot egípcio), nas mitologias antigas e folclores populares, constituem o corpo principal das tradições esotéricas do Leste e Oeste. Rigorosamente, quando se possui o conhecimento adequado, é possível observar as inter-relações existentes entre qualquer fenômeno ou conjunto de fenômenos e os arquétipos da humanidade, ou mesmo utilizar o aspecto energético-formativo destes últimos para direcionar ou influenciar as atividades do plano físico, tal como é feito na Magia ou Ocultismo.

 

O presente trabalho constitui um estudo sobre o simbolismo contido no jogo de Xadrez, sendo utilizados como ferramentas de investigação a Lei da Analogia, um pouco de raciocínio dedutivo e - principalmente - a intuição. Sua utilidade reside unicamente no demonstrar, mais uma vez, que todas as coisas conduzem ao Eterno quando são vistas com olhos que buscam a Verdade.

 

Antes de tudo, um Jogo

 

As reflexões mais ousadas sobre as origens do Universo ou suas causas primordiais recaem sempre sobre um problema de utilidade ou uma antinomia filosófica referente a voluntariedade de um “criador” onipotente e onisciente, livre quanto a qualquer compulsão para o ato criador. Pois se se admite qualquer razão ou justificativa para a Criação, se impõe uma restrição ou limitação inadmissível para um “ente” absolutamente livre e onipotente. Por outro lado, admitir que todo o Universo e a Vida surgiram por acaso - este último algo extremamente raro de encontrar-se, já que os laços de causa e efeito são perfeitamente observáveis em quase todos os fenômenos da Natureza -‚ é atentar contra os conceitos elementares de Utilidade e Economia das existências, postuláveis filosoficamente e já consagrados pela nova visão da Ecologia. Poder-se-ia aqui objetar que as fronteiras avançadas da ciência já se deparam com aspectos da natureza onde as leis de causa e efeito não são mais aplicáveis, como no caso dos fenômenos subatômicos. Tais observações, no entanto, têm contribuído para a formulação de uma nova teoria - chamada de "matriz S" (scattering matrix) - onde todos os elementos de um campo em observação são mutuamente dependentes e determinantes. Ora, tal teoria não invalida a lei de causa e efeito mas a amplia e converge mais uma vez para a nova perspectiva ecológica, na qual todas as coisas estão funcionalmente entrelaçadas.

 

Isto posto, permanece o questionamento básico quanto a razão ou motivo da existência universal.

 

No pensamento metafísico do Leste, entretanto, o dilema central da questão parece ter sido sabiamente resolvido, não por mero artifício intelectual, porém, mais provavelmente, por uma profunda identificação com os impulsos primordiais da Vida. Na concepção mais alta da filosofia védica, o “ente” criador não é personalizado, embora todas as formas e criaturas sejam manifestações e expressões de Sua essência; Ele é visto ao mesmo tempo como imanente e transcendente a Sua criação. Em Seu aspecto transcendente Ele é totalmente imune às modificações e fenômenos de Sua criação, sendo Suas características essenciais a imutabilidade e infinitude de Existência (Sat), Consciência (Chit) e Beatitude (Ananda). Em seu aspecto imanente Ele está presente em toda a Sua criação - até na mais ínfima quantidade de matéria - sujeitando-se a todo dinâmico processo de evolução cósmica, que se constitui uma auto-revelação progressiva segundo Sua própria lei orgânica de manifestação. Assim todo o Cosmos é o devir da Suprema Existência na manifestação fenomênica.

 

E por que o Supremo Transcendente tornou-se manifesto através do Cosmos, sujeitando-se às limitações e transitoriedade do Espaço-Tempo? A resposta dos antigos vem calma e ressonante: unicamente para Seu deleite. Embora Deus já tenha sido conhecido na tradição iniciática como O Dramaturgo, e no esoterismo maçônico como O Grande Arquiteto, essa percepção de deleite divino através do devir cósmico só foi vivamente captada pelas consciências exaltadas dos poetas mais sensíveis em diversas épocas e povos.

 

Assim, na concepção mais apurada do Leste, o Cosmos é uma "lila" - jogo - criada e vivida para e pelo deleite da Existência Una. Eis porque a lei para toda coisa ou criatura é o crescimento, expansão e plenitude de existência, comumente reconhecidos pela palavra "felicidade".

 

Aqui temos também uma chave importante para compreender a razão mais profunda pela qual os jogos em geral - e alguns em especial - têm acompanhado a história da humanidade de forma persistente através de séculos, raças e culturas. Pois, expurgando-se as motivações vitais, emocionais ou de auto-afirmação, os jogos correspondem a um princípio universal e por isso exercem uma forte atração sobre a natureza humana, constituindo sempre uma renovada promessa, esperança ou vivência de puro deleite, alegria de vir a ser ou contentamento existencial.

 

Não é por acaso que grandes verdades e mistérios foram expressos pelos antigos através de jogos ou estórias lúdicas, que tanto preservaram o símbolo de que eram portadores para a posteridade, quanto, ao longo do tempo, fertilizaram o inconsciente coletivo dos povos com poderosos e revitalizadores "clichês" das Idéias formadoras do Universo.

 

O Xadrez sendo portanto antes de tudo um jogo, corresponde desde logo a um princípio primordial da Manifestação e assim justifica inicialmente seu persistente e sempre renovado fascínio sobre aqueles a quem é dado conhecê-lo.

 

O Tabuleiro

 

O tabuleiro de xadrez constitui o campo onde todas as possibilidades de jogo se desenvolvem, podendo corresponder, por analogia, ao espaço cósmico, a um esquema planetário, a uma vida individual ou a qualquer outro campo fechado de manifestação.

 

É constituído de um quadrado com lado igual a 8 casas alternadamente pretas e brancas, totalizando 64 casas sobre o tabuleiro.

 

O quadrado é o símbolo usado desde a antigüidade para a manifestação perfeita no plano físico. A análise cabalística do número 4 fornece:

 

4  . arcano Daleth, representa o quaternário Iod-He-Vau-He (“Ieve” ou “Iave” ou o latinizado “Jeová”) que simboliza o ciclo básico de manifestação de todas as formas e entes.

 

A análise cabalística do número 8 (lado do tabuleiro) fornece:

 

8  . arcano Cheth, representa diretamente o campo de manifestação onde tudo pode ser submetido à existência e teste; sintetiza a redução numérica do quaternário Iod-He-Vau-He:

Iod (10) - He (5) - Vau (6) - He (5)  ® 10 + 5 + 6 + 5 = 26 ® 8 !

 

A análise cabalística do número 64 (número de casas sobre o tabuleiro) fornece  6 + 4 = 10 :

 

6  . arcano Vau, segundo G.O.Mebes, representa a grande Lei da Analogia no plano dos arquétipos; no  plano mental representa o Livre Arbítrio e, no plano da Natureza, o Meio-Ambiente;

 

         4  . arcano Daleth, já  visto;

 

10. arcano Iod, representa um sistema fechado capaz de transformações internas; é o signo próprio da Cabala e pode simbolizar qualquer sistema de criação e manifestação independente.

 

A alternância de casas pretas e brancas sugere diretamente a associação com o Tau chinês, significando a polarização dual básica da Criação bem como sua complementaridade na definição do campo de manifestação. Esta correspondência com o Tau torna-se ainda mais evidente quando se observa a posição inicial do Rei sobre tabuleiro (Rei branco em casa preta e Rei preto em casa branca), onde há perfeita complementaridade entre as cores do Rei (peça de valor absoluto para o jogo, a partir do qual tudo se desenvolve) e a casa que ocupa.

 


As Peças

 

As peças do Xadrez representam os diversos planos, níveis ou tipos de energia em manifestação no Cosmos.

 

A Torre traz a imagem da fortaleza com suas muralhas de pedras, representando o plano ou corpo físico. Pois o corpo ou plano físico do ser é sua parte mais exterior e desempenha exatamente o papel de proteção e base para manifestação dos veículos ou energias mais sutis da natureza individual ou universal.

 

O Cavalo representa o plano das energias vitais, sendo largamente utilizado nas escrituras védicas como símbolo da força e energia vital, tipificadas em seu nível mais baixo pelas emoções, desejos e paixões humanas, e, em seu nível mais elevado, pelo poder de realização, alegria e calma.

 

O Bispo traz para o tabuleiro (campo de manifestação) um poder hierarquicamente superior às energias vitais ou nervosas: o plano mental. Com sua conotação religiosa o Bispo representa o esforço da Natureza - humana e universal - na aproximação inteligente às causas primordiais da Criação. A Religião, em seus movimentos essenciais, tem sido para cada povo a expressão cognitiva de Deus e de suas relações com o homem, na concepção mais elevada possível à mentalidade de cada época; formaliza, em seus arranjos ideológicos ou ritualísticos, o trabalho da mente mais alta e abstrata da humanidade para compreender e relacionar-se com Deus.

 

A Rainha é a peça de maior mobilidade e poder de ação sobre o tabuleiro. Representa, pela sua polaridade e poder de realização, a natureza psíquica, a força anímica da manifestação. Ela simboliza a Shakti (Força Divina) individual ou universal em seu trabalho de abrir caminho para a vitória do Rei sobre todas as dificuldades e oposições da vida-mundo. Ela representa também a Prakriti (a Mãe Natureza, o aspecto manifesto da divindade), com seus infindáveis poderes e esplendores, desde sempre criando, transformando e sustentando o dinamismo universal.

 

O Rei‚ o valor absoluto do jogo. Ele representa o Espírito em torno do qual tudo se movimenta e tem sua plena justificativa de existência. É a peça de menor mobilidade sobre o tabuleiro (campo de manifestação) não obstante sua absoluta proeminência no jogo. Esta aparente contradição na verdade retrata mais uma vez a dualidade, dificuldade ou oposição elementar entre a consciência espiritual e a ação externa. Onde há plenitude de consciência, encontra-se geralmente o repouso ou ausência de movimento; onde há exuberância de ação, dificilmente se encontra uma consciência no mesmo grau de plenitude - diz um aforismo oriental: "Deus começa onde o movimento cessa".

 

É interessante observar que este binário constitui um dos princípios básicos da Manifestação, possuindo também um análogo no Princípio das Incertezas de Heisenberg, o qual constata a impossibilidade de se conhecer simultaneamente a posição e quantidade de movimento de uma partícula subatômica (ou se conhece com precisão sua posição e pouco se pode dizer sobre sua quantidade de movimento, ou, reciprocamente, se se conhece seu movimento, quase nada pode se dizer sobre sua posição no espaço em dado instante). Em termos mais amplos e complexos as filosofias do Leste tentaram ou lograram neutralizar essa dicotomia existencial, principalmente através da Bhagavad-Gita e do taoísmo de Lao Tsé. O budismo mahaiana entretanto culmina sua cosmovisão com a idéia do Grande Sacrifício do Transcendente, Infinito e Eterno que em Sua manifestação submete-se aos limites do finito e temporal. O conceito de Bodhisativa é então enaltecido e transformado em ideal ético, pois tipifica aquele que renuncia à suprema quietude e identificação com a Consciência Divina através do Nirvana, para manter-se preso aos limites da Manifestação e ajudá-la em sua transformação evolutiva. À idéia do Grande Sacrifício enfatizada pelo budismo, entretanto, contrapõe-se de forma complementar o sentido de um Ananda Divino através dos trabalhos da Natureza - sua "lila" - apontado pelo conhecimento védico.

 

O Rei corresponde ainda de maneira singularmente precisa aos atributos de imobilidade e imunidade do Purusha (Espírito) pois, além de sua pequena mobilidade, observe-se que o Rei jamais é capturado ou "morto" durante o jogo - o xeque-mate reproduz uma situação crítica em que uma ação ou movimento é exigido do Rei que não dispõe de liberdade para fazê-lo, apesar de todos os recursos materiais eventualmente presentes. O xeque-mate apenas encerra um período de manifestação (jogo) que coincide com a máxima restrição de realização de um Rei (realização espiritual, interior) de uma das forças em ação (Brancas ou Negras) sobre o tabuleiro.

 

Os Peões representam forças ou princípios não individualizados a serviço de poderes maiores. Apresentam entre si pequenas diferenças de natureza posicional apenas em função de seu distanciamento ao Rei ou ao centro do tabuleiro. Possuem no entanto uma maravilhosa possibilidade de transformação ao alcançar a oitava linha, após atravessar todas as experiências que lhe são possíveis ao longo do tabuleiro: podem se transformar em uma Peça qualquer da hierarquia do jogo, a exceção do Rei. Essa capacidade de auto-superação e auto-transformação, que está presente também no jogo de Damas, tem sido uma das promessas mais sublimes já feitas à humanidade por todos os seus grandes Instrutores. O simples Peão guarda então em si a possibilidade da Transformação ou Transmutação pelo trabalho perseverante.

 

Interessantes lições podem ser ainda apreendidas com as circunstâncias que cercam a conversão de um Peão em uma Peça, sendo talvez uma das mais importantes aquela que define a escolha da Peça em função das exigências do jogo ou da posição - os desígnios do Rei! - e não simplesmente em favor da Peça de maior status possível, que seria sempre a Rainha. A melhor escolha advém então daquilo que é melhor para o Todo ou está conforme a vontade do Senhor e Rei.

 

 

A Posição Inicial

 

A posição inicial de um jogo de Xadrez é uma representação precisa e reveladora de todos os poderes, planos ou energias em manifestação no Cosmos. Contém em si não somente a indicação de tais poderes, sua hierarquia e posição em relação ao Centro do tabuleiro, mas também a polaridade básica de manifestação desses poderes através das Peças Brancas (o aspecto superior) e Negras (o aspecto inferior).

 

Quanto à hierarquia, observa-se uma correspondência notável com os conceitos mais antigos da tradição espiritual do Leste:

 

·     as Torres, que representam o plano ou corpo físico, situam-se nas laterais periféricas do tabuleiro, nos pontos mais afastados do Rei e do Centro;

 

·     os Cavalos, as energias vitais, situam-se próximos ao nível físico (as Torres) porém posicionados de maneira mais interior (menos distantes do Rei);

 

·     os Bispos - o nível mental - situam-se ainda mais próximos ao Rei do que as energias vitais (os Cavalos), sendo interessante notar que de um lado (na ala do Rei) o Bispo está diretamente ligado ao Rei e posicionado numa casa de mesma cor que o Rei (simbolizando a mente mais abstrata, capaz de identificar-se com a qualidade essencial do Purusha), e pelo outro lado (na ala da Rainha) o Bispo se liga diretamente à Rainha, posicionando-se em casa de cor contrária à do Rei (simbolizando a mente concreta, cuja aproximação ao Purusha se dá através de elementos de natureza oposta a qualidade essencial do Rei);

 

·     a Rainha, a força psíquica ou Shakti, é o poder máximo de manifestação do Rei sobre o tabuleiro e situa-se em casa de mesma cor que o Rei, simbolizando sua plena integração com a qualidade essencial do Purusha;

 

·     o Rei - representação do Espírito ou Purusha - encontra-se numa das colunas centrais do tabuleiro e ocupa, surpreendentemente, uma casa de cor contrária a sua própria! O mistério seria indecifrável não fosse a chave fornecida pelo taoísmo chinês: os extremos se tocam, o Yang se alimenta do Ying que vive às custas do Yang, e assim prossegue indefinidamente; dentro de cada santo há um Titã e dentro de cada demônio há um anjo que quer manifestar-se; esse (o Tau) é o Princípio único da Manifestação (a polarização dual) através do qual todos os seres nascem e se expressam no universo objetivo.

 

 

O Lance Inicial

 

No Xadrez o lance inicial é realizado somente pelas Brancas, havendo também nisto uma correspondência com a afirmação da tradição esotérica de que antes da Criação manifestar-se através do Cosmos, houve uma Criação Primordial (o Adam Kadmon) constituída das Hierarquias Construtoras do Universo (os Elohim). Foi através dos movimentos impulsionadores dEstes Seres que a Divindade veio a exteriorizar a Si mesma no jogo fenomênico das forças dos três mundos (planos) inferiores (físico, astral e mental).

 

Sem o movimento primordial e “provocador” dos Elohim nenhuma Manifestação seria possível. A Divindade aguardaria eternamente em sua infinita e incognoscível potencialidade - embora a expressão “eternidade” seja aqui imprópria, pois implica existência de Tempo, e sem Manifestação o Tempo é apenas uma semente de possibilidade.

 

Dessa forma, é simbolizado através da primazia do primeiro lance pelas Brancas, a precedência dos poderes superiores da Consciência a cada ciclo de manifestação. A alternância de lances Negros e Brancos que se sucede após o Primeiro Lance, é expressão direta da Lei da Ação e Reação (Karma) a que se submetem todas as coisas manifestas, mecanismo através do qual o Espírito manipula a Matéria incansavelmente até sua Transmutação final em Consciência - o livre poder de realização e manifestação, a maestria criativa no Jogo - e Deleite, a perfeita fruição da Vida em alegria não prisioneira a objetivos temporais e egoísticos; Vida que se torna unicamente um meio para a livre expressão do Ser, um Jogo para o Eterno Jogador.

 

 

O Objetivo do Jogo

 

Em um primeiro enfoque, se estabelece sobre o tabuleiro uma luta entre o Lado Branco e o Lado Negro, cujos objetivos intermediários são a superioridade posicional ou material, sendo a vitória obtida quando um dos lados restringe ao máximo os movimentos do Rei adversário, através de uma ameaça direta sem defesa em um único lance - o lance que lhe cabe na alternância de movimentos brancos e negros (ação e reação, carma).

 

Porém, na história do Xadrez, quase tanto quanto na história da própria Humanidade, tem havido sucessivas e variadas visões a respeito do objetivo do jogo (existência). No campo da Filosofia é possível, para algumas correntes de pensamento, até mesmo negar uma finalidade precípua para a existência (jogo). Por outro lado, a observação atenta dos processos biofísicos nos seres vivos tem demonstrado - através do fenômeno chamado por Ludwig von Bertalanffi de equifinalidade - a tendência dos processos biológicos em atingirem um certo estado final, independentemente do estado inicial ou caminho adotado no percurso. Esta equifinalidade - característica dos seres vivos, isto é, dos sistemas abertos em equilíbrio dinâmico no estado quase-estável (Bertalanffy) - aponta para uma possibilidade até pouco tempo rejeitada pela Física e, desdenhosamente, colocada no terreno da Metafísica: a existência de leis maiores, mais gerais, não subordinadas às causas físicas (porém não indiferentes a estas), que “conduzem” os processos a determinados estados ou estágios, quaisquer que sejam os estados iniciais ou condições intermediárias. O grande constrangimento do pensamento positivista-mecanicista diante deste fato, resulta da dificuldade de se admitir uma causa não-física regulando os processos físicos e seu aspecto teleológico - ou de conhecimento “a priori” do estado final dos processos.

 

No caso do Xadrez, observou-se uma evolução do jogo puramente tático - período romântico, marcado pela valorização radical da exploração de oportunidades surgidas de erros ou complicações emergentes “ao acaso”, visando ganhos materiais ou situações de mate quase imprevisíveis -, ao jogo estratégico, norteado por conceitos que parecem emergir como leis gerais inerentes ao jogo, permitindo prognósticos de alcance mais longo e reduzindo substancialmente os imprevistos de “acaso” sobre o tabuleiro. Graças ao conhecimento de tais leis ou conceitos, de caráter posicional ou sistêmico, o jogador pode tomar decisões mais corretas a médio e longo prazo, mesmo que, de imediato, seu lance signifique a perda de material ou uma aparente perda de tempo do ponto de vista do ataque (o enfoque romântico). Pode-se afirmar, sem risco de erro, que o conhecimento e o poder de agir em harmonia com as leis gerais do jogo (vida), juntamente com o discernimento para avaliar a constante permuta entre aspectos táticos (materiais) e posicionais ou estratégicos (espirituais), determinam o nível de “sucesso” (realização) no jogo (vida).

Até aqui, entretanto, discutiu-se a existência de leis que regem o jogo (ou processo biofísico qualquer), o qual é uma realidade já manifesta e portanto observável. Porém a questão a que nos remete o tópico “O Objetivo do Jogo” é mais profunda e até certo ponto transcendental. Em termos físicos poderia ser assim formulada: “por que ou para quê surgiu todo o Universo, com todos os seus incontáveis processos e leis auto-reguladoras?”... Em termos de jogo de Xadrez: “por que ou para quê é dado o primeiro lance sobre o tabuleiro, iniciando-se assim um encadeamento de situações subordinadas a leis gerais e autodeterminantes?"... Se inquirir-se um bom jogador de Xadrez por que ele se assenta diante do tabuleiro para jogar, ver-se-á que, junto ao desejo de vencer um adversário, há uma enorme expectativa de deleite, independentemente do resultado. Essa expectativa de deleite torna-se mesmo auto-suficiente à medida que a compreensão do jogo (vida) se amplia, libertando o jogador (o homem) do apelo primitivo da auto-afirmação-repetitiva-de-si pela vitória (culto narcisista à própria personalidade). Além, muito além, dos campeões profissionais do jogo de xadrez - que fazem da Arte um comércio e objeto de culto à personalidade - estão os grandes e anônimos poetas do jogo, que extraem do Xadrez (vida) o máximo de deleite, produzindo verdadeiros símbolos de Beleza, Harmonia e Economia, sem se apegar ao resultado do jogo (os frutos do trabalho).

Portanto - como já foi visto antes - no Xadrez, tanto quanto na Vida e no Universo, o objetivo não está em algum resultado utilitário, permanente ou temporário, e sim no deleite inerente ao próprio processo, inteiramente livre de quaisquer que sejam os resultados e aparências externas do processo...

Talvez uma mente por demais ética ou idealista tente interpor modelos e restrições ao Supremo Deleite do Devir Cósmico, mas esta será apenas mais uma forma do sempiterno Deleite...

Um só Fruidor conduz as Peças Brancas (o Bem) e Negras (o Mal), embora a batalha seja de morte!