Por Uma Abordagem Transdisciplinar Em Psicologia
(Texto elaborado por Mércia Melo Silva - Junho/97)
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Não
me iludo,
Tudo
permanecerá do jeito
Que tem
sido, transcorrendo,
Transformando,
Tempo -
espaço navegando
Todos os
sentidos
Água mole,
pedra dura
Tanto bate
que não restará
nem pensamento.
Tempo Rei,
ó Tempo Rei, ó Tempo Rei
Transformai
a velha forma do viver
Ensinai-me ó Pai o que ainda não sei.
(Tempo
Rei - Gilberto Gil)
Desde a Antiguidade, quando os filósofos começaram a se ocupar com a
atividade de explicar o mundo, o homem foi seduzido pela extrema necessidade de separar as coisas. No entanto,
a partir de Newton e de Descartes, esse ímpeto analítico, ganhou desdobramentos
significativos, até se transformar em paradigma
cientifico, ou seja, em “molde” para reger a ciência. Um paradigma,
sabemos, é uma espécie de teoria geral de escopo capaz de abranger a maioria
dos fenômenos conhecidos do seu campo ou
de fornecer-lhes um contexto.
“Todo ponto de vista se apóia em certos pressupostos sobre a natureza da
realidade. Quando se reconhece isso, os pressupostos funcionam como hipóteses, quando se esquece isso,
eles funcionam como crenças.
Conjuntos de hipóteses criam modelos ou teorias, e conjuntos de teorias
constituem paradigmas.”(Ken Wilber)
Uma
vez que se torne implícito, um paradigma adquire um tremendo, mas não
reconhecido poder sobre os que a ele aderem, passando os mesmos ser crentes. Em Psicologia, isto é
conhecido como um vínculo E-R (estímulo - resposta), uma condição em que o
pesquisador só é capaz de admitir a sua própria teoria, por lhe parecer
evidente que não pode ser de outro modo. Essa condição denomina-se fixação do paradigma.
Devido
à condição de fixação do paradigma, a introdução de idéias que não estejam
contidas no paradigma vigente, pode apresentar extraordinárias dificuldades,
podendo resultar no que Kuhn chama de choque
de paradigmas. No choque de
paradigmas é comum o antagonismo e a comunicação deficiente entre as
facções, o que acarreta o fato de que, mesmo
os maiores inovadores científicos, foram com freqüência, hostilizados de
inicio.
Todo paradigma defende a verdade dos seus
próprios pressupostos. Tudo aquilo que se encontre fora do seu escopo, ainda
tende a ser visto da perspectiva do próprio paradigma e, portanto, a ser
distorcido ou falsificado.
Não podemos negar que os paradigmas (e na
verdade todos os modelos) realizam funções organizadoras úteis e necessárias;
no entanto, quando nos esquecemos da sua natureza
hipotética, eles agem como “filtros perceptivos”, que produzem distorções.
No Ocidente, por exemplo, afirma-se que a
matéria é o constituinte primário da realidade. Vê-se a consciência como um produto,
e até como um epifenômeno, de processos materiais, cerebrais em especial. No
Oriente, contudo, mantém-se a concepção oposta. Vê-se a consciência como o
elemento primário e a matéria como o seu produto, razão porque se atribui ao
mundo material, menos significação. Um ponto de vista que hoje começa a surgir,
sustenta que nenhuma delas é primária, mas sim que exprimem uma realidade de ordem superior, sendo
mutuamente interdependentes.
A Psicologia Ocidental há muito considera o estado de consciência
desperto (vigilia) como o estado ótimo. No entanto,
várias outras psicologias alegam que existem “estados superiores” mais
adaptativos e que a gama de estados potencialmente disponíveis à consciência é
bem mais ampla do que se costuma pensar.
Os modelos psicológicos ocidentais
tradicionais não podem abarcar estas alegações, visto que o pressuposto “o
comum é melhor” as exclui automaticamente de consideração. Por isso, começa a
delinear-se uma mudança para modelos mais abrangentes.
À medida que novos dados ficam disponíveis,
vindos tanto das tradições não-ocidentais como da ciência moderna, é provável
que essas mudanças continuem. Como observa Stanislav Groff: Os paradigmas tradicionais não foram capazes de dar
conta de uma vasta quantidade de observações desafiadoras de muitas fontes
independentes nem de acomodá-las. Em sua totalidade, esses dados indicam a urgente
necessidade de uma drástica revisão em nossos conceitos fundamentais sobre a
natureza humana e a natureza da
realidade”.
Tal como ocorre na evolução da ciência em
geral, na resolução de todo aparente conflito de concepção, de paradigma ou de
visão de mundo entre as psicologias do Oriente e do Ocidente, um esforço de
integração pode produzir sínteses, que , como reformulações de ordem superior
dos estados de consciência e das realidades dependentes de estado, podem
oferecer uma compreensão mais complexa e de bases mais sólidas que as atuais . . .
Ora, as práticas ditas
alternativas, em sua maioria, provêm da Psicologia praticada no Oriente,
cuja visão do homem e da realidade é
indissociável, Holística e é natural que um paradigma diferente do que estamos
acostumados e porque não dizer, condicionados, cause reações adversas.
Isto não impede que estejamos abertos ao estudo e à
pesquisa dessas novas práticas, que se
constituem numa tentativa de síntese entre a visão Ocidental fragmentária e a
visão Oriental unitária.
No entanto, não podemos desconsiderar que a
própria Física, já admite a urgência de uma mudança do paradigma cientifico, da
forma como temos encarado a realidade que nos cerca, até para que possamos
atender à demanda atual da população, que se sente atraída por algo que atenda
melhor aos seus anseios de transcender esta realidade limitada e limitante na
qual estamos encarcerados. E isto já é por demais evidente em nossos dias.
Fritjof Capra, um dos maiores representantes da Física Quântica, no
seu livro Pertencendo ao Universo, nos diz: “O objetivo da Ciência é, creio eu, adquirir conhecimento sobre a
realidade, sobre o mundo. A ciência é uma maneira particular de adquirir
conhecimento, parecida com muitas outras maneiras. E um aspecto do novo
pensamento na ciência é que essa não é a única maneira, e não é necessariamente
a melhor, mas apenas uma dentre muitas maneiras.”