Ciência
e Tradição: Perspectivas Transdisciplinares
para o século XXI
Paris, UNESCO, 2-6 de dezembro de 1991
Comunicado final
Os
participantes do Congresso "Ciência e
Tradição: Perspectivas transdisciplinares
para o século XXI" (Paris, Unesco, 2-6
de dezembro de 1991), etapa preparatória
para futuros trabalhos transdisciplinares, estiveram
de acordo a respeito dos seguintes pontos:
1. Em nossos dias, estamos assistindo um enfraquecimento
da cultura. Isso afeta de diversas maneiras tanto
os países ricos como os países pobres.
2. Uma das causas disso é a crença
na existência de um único caminho de
acesso à verdade e à Realidade. Em
nosso século, essa crença gerou a
onipotente tecnociência: "tudo o que
puder ser feito será feito". Com isso,
o germe de um totalitarismo planetário se
tornou presente.
3. Uma das revoluções conceituais
desse século veio, paradoxalmente, da ciência,
mais particularmente da física quântica,
que fez com que a antiga visão da realidade,
com seus conceitos clássicos de continuidade,
de localidade e de determinismo, que ainda predominam
no pensamento político e econômico,
fosse explodida. Ela deu à luz a uma nova
lógica, correspondente, em muitos aspectos,
a antigas lógicas esquecidas. Um diálogo
capital, cada vez mais rigoroso e profundo, entre
a ciência e a tradição pode
então ser estabelecido a fim de construir
uma nova abordagem científica e cultural:
a transdisciplinaridade.
4. A transdisciplinaridade não procura construir
sincretismo algum entre a ciência e a tradição:
a metodologia da ciência moderna é
radicalmente diferente das práticas da tradição.
A transdisciplinaridade procura pontos de vista
a partir dos quais seja possível torná-las
interativas, procura espaços de pensamento
as que façam sair de sua unidade, respeitando
as diferenças, apoiando-se especialmente
numa nova concepção da natureza.
5. Uma especialização sempre crescente
levou a uma separação entre a ciência
e cultura, separação que é
a própria característica do que podemos
chamar de "modernidade" e que só
fez concretizar a separação sujeito-objeto
que se encontra na origem da ciência moderna.
Reconhecendo o valor da especialização,
a transdisciplinaridade procura ultrapassá-la
recompondo a unidade da cultura e encontrando o
sentido inerente à vida.
6. Por definição, não pode
haver especialistas transdisciplinares, mas apenas
pesquisadores animados por uma atitude transdisciplinar.
Os pesquisadores transdisciplinares imbuídos
desse espírito só podem se apoiar
nas diversas atividades da arte, da poesia, da filosofia,
do pensamento simbólico, da ciência
e da tradição, elas próprias
inseridas em sua própria multiplicidade e
diversidade. Eles podem desaguar em novas liberdades
do espírito graças a estudos transhistóricos
ou transreligiosos, graças a novos conceitos
como transnacionalidade ou novas práticas
transpolíticas, inaugurando uma educação
e uma ecologia transdisciplinares.
7. O desafio da transdisciplinaridade é gerar
uma civilização, em escala planetária,
que, por força do diálogo intercultural,
se abra para a singularidade de cada um e para a
inteireza do ser.
Comitê de redação: Rene Berger,
Michel Cazenave, Roberto Juarroz, Lima de Freitas
e Basarab Nicolescu.
• Home