Holismo e Ecologia por uma Nova Era
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Para
o homem desperto em suas faculdades intelectuais e mentais mais nobres e
genuínas, não é possível uma convivência mais demorada ao lado de opostos
absolutos e inconciliáveis. Toda permanência em qualquer uma das posições
extremas parece-lhe um assumir, velada ou declaradamente, uma postura
arbitrária, preconceituosa e presunçosa com respeito à posse da Verdade, ou uma
simples acomodação a padrões adquiridos por herança ou imposição da tradição,
que impedem o indivíduo de chegar a uma concepção mais abrangente da Verdade.
Diante
disto, ele se esforça para elaborar uma síntese a partir dessa massa de
argumentos e semi-verdades mutuamente conflitantes, tendo como postulado
imperativo a idéia de que a Verdade é una, porém infindáveis são suas formas de
expressão, sendo cada expressão uma manifestação autêntica de um de seus
ilimitados aspectos. Ele se esforça então para captar a essência de todas essas
manifestações, buscando restituir-lhes sua unidade original, indivisível,
estabelecendo uma harmonia mais firme e duradoura onde havia conflito e luta de
afirmação entre verdades parciais.
Ao
que parece, no momento atual, esse esforço de síntese se apresenta não apenas
como o ideal de uma elite intelectual da humanidade, mas também como uma das
mais promissoras chances para a sobrevivência da espécie sobre o planeta. A
pressão destas duas fortes estruturas de conhecimento, o Holismo1 -
no campo das idéias -, e a Ecologia2 - no campo das ciências -,
tanto são sinais de amadurecimento de uma humanidade cansada e extenuada por
maniqueísmos e individualismos desgastantes, como são indícios de que a
Natureza está recorrendo a mecanismos mais complexos e sintéticos para garantir
sua integridade psicobiofísica. Estes são recursos inéditos na História - em
sua metodologia e abordagem abrangentemente sistêmicas e racionais - que serão
tentados pela Natureza até seus limites, antes que o método da restruturação
pela convulsão cataclísmica seja, mais uma vez, empregado.
Ao
se admitir a presença de um princípio inteligente e autoregulador nos trabalhos
da Natureza, não se incorre aqui naqueles primitivos recursos de
antropomorfização do Cosmos, ou mistificação das leis naturais; antes,
atende-se à evidência de que não existe sistema fechado ou isolado e que, por
conseguinte, todos os sistemas são interligados e interdependentes,
constituindo um único sistema dinâmica e organicamente concatenado. E isto não
se aplicaria apenas aos sistemas físicos e biológicos, mas também aos sistemas
de natureza intelectual e religiosa - por uma simples questão de simetria e
uniformidade do critério de análise em uso. Finalmente, seguindo esta mesma
regra fundamental, também os sistemas de naturezas diferentes - físicos, biológicos,
mentais e espirituais -, são partes inseparáveis de um único sistema, sendo os
fenômenos observados em cada campo específico, o resultado de uma complexa teia
de interações que envolve todos os sistemas da Natureza. Então, sendo assim, se
é verdade que em um ecossistema qualquer está presente um vetor autoregulador e
automantenedor do equilíbrio dinâmico do sistema - e isto já foi constatado
pela Ecologia -, é inevitável que haja uma mesma força de coesão, ligação e
regulação entre todos os processos da Natureza, qualquer que seja o tipo ou
categoria de fenômeno envolvido.
Em
razão disto, o equacionamento de qualquer problema social, político ou
econômico, tem que passar - nesta nova perspectiva - por uma apreensão tão
vasta quanto possível do contexto psicobiofísico em que se insere o problema.
Eis a razão porque têm falhado as soluções parciais, de caráter meramente
político ou econômico, para os problemas da sociedade moderna, da mesma forma
como têm falhado os tratamentos das doenças de imunidade, ou as tentativas de
compreensão das observações e pesquisas mais recentes da microfísica e da
astrofísica. Será possível resolver de forma permanente um problema social
unicamente através de medidas políticas e econômicas, sem se observar o contexto
cultural e o atavismo psicológico envolvidos? Será igualmente possível combater
enfermidades enfocando apenas o sistema fisiológico de um indivíduo, ignorando
seu tônus emocional, hábitos psicológicos e história pessoal? Será ainda
possível compreender as causas últimas da manifestação cósmica unicamente
através do rastreamento de seu comportamento físico, ignorando as grandes
forças e mecanismos psíquicos-mentais que estão presentes na Natureza, isto é,
a interação entre consciência e matéria, já afirmada pela Física Quântica? Ou
ainda, é possível um desenvolvimento material sadio e equilibrado do grupo
social humano sem a correspondente evolução de consciência (mudança
comportamental) de seus indivíduos? A estas perguntas, a nova visão holística e
ecológica do mundo responde segura e firmemente: não!
Será
necessário que o trabalho de abertura intelectual - até agora sustentado por
uma "minoria criativa" - seja expandido a todos os segmentos da
sociedade humana através de uma nova Educação. As contribuições do Holismo e da
Ecologia - cada uma dessas disciplinas buscando exceder seus próprios limites
atuais de formalização e expressão -, são desde logo sentidas como de
inestimável valor para essa transformação global. Uma transformação que
seguramente irá de encontro a todos os limites rígidos e intolerantes, sejam de
natureza étnica, social, política, ideológica ou religiosa. Cairão por terra -
não sem feroz resistência - o domínio opressivo e sectário de instituições
seculares ditas religiosas, assim como o materialismo nonsense,
utilitarista, individualista e mercantil. Porém nada necessita ser
definitivamente excluído ou destruído; ao contrário, tudo pode ser revitalizado
em sua essência e - curado de deformações e cristalizações inerentes ao uso
menos lúcido de antanho -, encontrar novas, flexíveis e mais verdadeiras formas
de expressão. Tampouco é necessário o estabelecimento de um único modo de
pensar ou um único modus vivendi; também aqui, ao contrário, todas as
formas de ser podem ser harmonizadas desde que compreendidas e admitidas em sua
identidade essencial. Uma unidade na diversidade, baseada numa profunda
compreensão das leis gerais de interação entre os diversos sistemas
psicobiofísicos da Natureza, é a chave para o desenvolvimento livre e progressivo
da vida individual e grupal da Humanidade - e não uma uniformidade geral e
monótona, seja de classe social, seja de credo político, filosófico ou
religioso.
Esta
é a via de evolução apontada pelo Holismo e pela Ecologia para a construção de
uma Nova Era. É também uma das poucas alternativas que restam à Humanidade para
- através de sua intervenção inteligente -, corrigir o curso dos acontecimentos
em favor de sua sobrevivência. Mas, se forem desperdiçadas as oportunidades de
redirecionamento que estão agora acessíveis à espécie humana, a Natureza
seguramente procurará reequilibrar-se através de seus próprios meios...
1. Holismo: postura filosófica - encontrável,
primeiramente, no monismo do Advaita Vedanta hindu, posteriormente revivida no
pensamento grego por Plotino, e modernamente revigorada pelo desenvolvimento da
pesquisa holográfica* e da memória celular - caracterizada por uma abordagem
sistêmica e sintética (não-dualista) dos aspectos observáveis ou inteligíveis
da Natureza, onde cada elemento de um campo é considerado um evento que reflete
e contém todas as dimensões ou propriedades do campo.
2. Ecologia: inicialmente restrita ao estudo das
relações entre os seres vivos e seu habitat natural, generalizou-se
fortemente - sobretudo devido aos progressos da Teoria Geral dos Sistemas -,
ultrapassando os limites da Biologia, Química e Física, sendo uma de suas
realizações mais recentes a Hipótese de Gaia: teoria que demonstra como toda a
Terra (Gaia, a deusa grega) age e reage através dos fenômenos físicos,
químicos, econômicos, sociais e ideológicos, como um único organismo vivo, em
busca de equilíbrio e permanência.
*Um holograma é um filme especial obtido com raios
laseres, onde qualquer pedaço, por menor que seja o tamanho, é capaz de
reproduzir a informação do filme completo.