A Plena Atenção
Dulce Magalhães
De todas as viagens que podemos empreender, de todas as
conquistas que podemos nos vangloriar, de todas as emoções que podemos
perseguir, a mais importante experiência é viver o AQUI e AGORA.
O tempo todo ou estamos
pensando em algo do passado ou mentalizando algo do futuro. Andamos distraídos
de nós mesmos, uma presença ausente. É por isso que não nos lembramos de grande
parte dos fatos que compõem nossas vidas, não temos memória sobre aquilo que
não colocamos atenção. O que você estava fazendo há exatamente um mês atrás?
Você poderia descrever com exatidão a quarta-feira da semana passada? Que
ações, sentimentos, aprendizagens e encontros ocorreram ontem em sua vida?
A maioria de nós vai lembrar
apenas de situações consideradas marcantes, ou pelo estresse provocado, ou pela
alegria sentida. Mas a existência, toda ela, deveria ser vivenciada como algo
marcante, afinal se trata de nossa própria existência.
Usamos a expressão “perda de
tempo”, porém, quando estamos presentes no aqui e agora nunca há perda. Se
percebo o que estou sentindo, se aprendo com o que está acontecendo, se usufruo
da oportunidade de estar vivenciando integralmente a realidade percebida e além
dela, saio dos extremos da dor e do êxtase e vivo a profundidade da
experiência, onde tudo é mais nítido.
O que precisamos aprender já
está disponível, a oportunidade é sempre presente, para ser basta estar. Não é
preciso “acontecer” nada, tudo que é “existir” já está acontecendo. A grande
questão é que enquanto tudo acontece, nós estamos ausentes, pensando em outra
coisa.
Quantas vezes, distraídos de
nós mesmos, esquecemos onde colocamos a caneta que seguramos na mão, procuramos
os óculos que já estão sobre nossa face, vamos buscar algo e esquecemos o que
queríamos, não lembramos o que pensávamos há apenas segundos atrás.
Esvaziados da experiência do
agora, passamos a vida procurando por alguma coisa que nos complete, que dê
sentido à nossa existência, um amor que nos faça felizes, uma carreira que nos
valide, um sucesso que mostre nossa importância, uma experiência que seja
emocionante. Queremos o que já possuímos, pois a existência é a completude, a
felicidade, a confirmação de nosso valor perante a vida, a mais emocionante das
experiências cósmicas.
Ser uma “presença presente”
em nossa própria existência é o maior dos desafios humanos. A viagem mais
emocionante, para o lugar mais interessante sobre a face da Terra, não será de
nenhum valor se estivermos pensando nas questões que deixamos em casa, ou
preocupados com o que temos que fazer depois que voltarmos da viagem.
Imagine visitar as pirâmides
do Egito, o Taj Mahal na Índia, as cataratas de Foz do Iguaçu, enfim as grandes
maravilhas que estão disponíveis e não prestar nenhuma atenção por estar
pensando em outra coisa. Seria um grande desperdício, não seria? Contudo, o
tempo todo estamos frente às maiores maravilhas de nossa existência, onde cada
segundo de vida nos é oferecido para experienciar, aproveitar, desfrutar,
aprender e mudar, e passamos batidos, distraídos, olhando em outra direção, que
não seja nós mesmos.
Tem gente perdida no passado,
num verdadeiro exercício de antropologia. A maior parte do tempo pensa no que
já aconteceu, por que aconteceu, quem foi o responsável, bate no peito, chora,
reclama, lamenta e perde a única chance disponível de fazer valer a existência,
vivendo o agora. Mesmo quando o passado é uma memória super feliz, ainda
assim é apenas memória e não experiência. É preciso seguir o momento, mergulhar
no presente e prestar atenção ao que é e não ao que foi.
Outras pessoas estão
preocupadas com o futuro, e seu exercício é de quiromancia. Tentam antever o
que virá, desvendar os segredos do amanhã, programar-se para tudo que possa
acontecer. Passam anos se preparando para um outro momento, desperdiçando
milhares deles na busca de algo que nunca vai ocorrer, porque estará sempre no
amanhã. É preciso conectar-se ao aqui e agora e desfrutar da sensação da plena
existência, colocar a atenção ao que é e não ao que pode ser.
A vida está onde a gente a
coloca. Pode estar no passado, no futuro ou no agora. Pode ser plena ou falha,
de acordo com a limitação de nossa percepção, porque a vida é e não precisa de
justificativa nem de complementação. Talvez não seja necessário se tornar
“alguém”, talvez a única questão seja nos tornamos capazes de ser quem já somos
e viver a plenitude desta magnífica revelação.