Educar a Alma:
Alfabetização Psíquica
Roberto Crema
Uma educação que queira facilitar a arte de
conviver terá de se lançar na revolucionária proposta de uma alfabetização
psíquica. Trata-se da tarefa ousada e imprescindível de colocar a alma nos
bancos escolares, desde o pré-primário até as universidades, facilitando que o
aprendiz desenvolva a inteligência psíquica. Sobretudo com o desenvolvimento
das funções básicas, pesquisadas por Jung: pensamento, sentimento, sensação e
intuição. A educação convencional apenas tem se ocupado, de forma fragmentada,
com o pensamento e a sensação. Incluir em nossos currículos o tema do
sentimento e da intuição, harmonizando-as e integrando-as com as demais, é uma
tarefa de grande alcance e pertinência, visando o resgate de uma consciência
mais vasta, de integridade e de inteireza.
Educar a alma é desenvolver, também, a inteligência
emocional. Sabemos que há emoções naturais, que representam verdadeiros
mecanismos homeostáticos, que ajudam o organismo na sua sobrevivência
individual e coletiva. Necessitamos de uma pedagogia do afeto, que facilite o
desenvolvimento de vínculos afetivos. A alegria é uma lição fundamental, na
escola da existência. A tristeza é uma estratégia saudável, no contato com as
perdas. Aprender a lidar com a raiva é imprescindível, na relação com o mundo.
E o medo é outra lição que precisa ser trilhada, no confronto com o
desconhecido.
Quando o aprendiz não tem acesso ou reprime a expressão
emocional das emoções autênticas, um disfuncional repertório emotivo
substitutivo é adquirido. Na análise transacional, conhecemos bem o que são
denominados 'disfarces', emoções distorcidas que encobrem as naturais, que
estão interditadas. Os mais típicos disfarces são a ansiedade, depressão,
fobia, inadequação, culpa, vergonha, ressentimento, ódio, inveja, ciúme,
vingança, triunfo maligno, entre outros.
Por outro lado, é necessário o desenvolvimento da
inteligência onírica. Este é um capítulo muito importante na nova educação.
Sonhar constitui um nível de realidade que tem a sua lógica própria,
complementar à da vigília. Estudar o Livro dos Sonhos, registrando, cuidando e
aprendendo a aprender com os sonhos nossos de cada noite, é uma tarefa básica
para o autodesenvolvimento. No Ocidente, o sonho tem sido objeto de pesquisa
científica há mais de um século, a partir da escuta analítica e psicoterápica
até os complexos laboratórios. Sabemos que o sonho exerce uma função
compensatória, corrigindo a unilateralidade da consciência de vigília.
Equivalente aos pensamentos, os sonhos representam valiosas amostragens
existenciais, reportagens do processo de individuação. Apontam direções
criativas, soluções inesperadas, advertências, também vinculando-nos ao
inconsciente coletivo. Às vezes, são verdadeiras parábolas, plenas de múltiplos
sentidos. Aprender a cuidar dos sonhos e a honrá-los no cotidiano, ampliando a
arte interpretativa, faz parte de um existir lúcido, com qualidade psíquica.
Já há escolas, como a Casa do Sol, da Unipaz-Brasília, onde
as crianças iniciam a jornada diária partilhando os seus sonhos, como em certas
culturas tribais, onde a alma é valorizada e, também, educada.
Os antigos Terapeutas da Alexandria estudavam as escrituras
também para se qualificarem na arte de interpretar os sonhos. E
pesquisavam-nos, para se aperfeiçoarem na arte de compreender os textos
sagrados, as crises e as doenças. Uma tarefa bastante nobre de uma educação
integral é a de facilitar a abertura de visão e de escuta para o exercício de
uma inteligência hermenêutica, que habilite o educando a interpretar e
compreender os sonhos, pesadelos, tombos, encontros e desencontros da jornada
existencial.
Finalmente, uma alfabetização psíquica solicita, também, o
desenvolvimento da inteligência relacional. Carl Rogers afirmava que o grupo
foi a maior descoberta do século XX. Neste século, foram criadas e
aperfeiçoadas técnicas e dinâmicas de grupo, variadas e sofisticadas. Por que
não empregá-las no cotidiano escolar? Como aprender a conviver sem o exercício
do envolvimento grupal e comunitário, com uma facilitação competente, de forma
a se adquirir competências atitudinais diante dos conflitos, dificuldades e
impasses do coexistir? Uma educação profilática é a que facilita a aquisição de
responsabilidade, ou seja, habilidade em responder. Assim, a educação exerceria
a sua função preventiva, diante de tantas mazelas, a nível individual, social e
ambiental, derivadas da ignorância psíquica, do desconhecimento dos recursos da
alma.
Entretanto, se o nosso pressuposto for meramente
psicossomático, estaria totalmente inviabilizada a pedagogia iniciática. Para
aprender a conviver, necessitamos do resgate da consciência psíquica.
Roberto Crema, psicólogo e
antropólogo do Colégio Internacional dos Terapeutas, analista transacional
didata, criador do enfoque da Síntese Transacional. Mentor da Formação
Holística de Base da UNIPAZ. Educador e autor de vários livros, entre os quais
'Análise Transacional Centrada na Pessoa', 'Introdução à Visão holística' e
'Saúde e plenitude'. Vice-reitor da UNIPAZ.