Elogio ao Jardineiro
Roberto Crema
O jardineiro é a melhor
metáfora para designar a excelência do educador e do terapeuta. O bom
jardineiro prepara um solo fértil, com os nutrientes necessários – nem de mais,
nem de menos – extermina as pragas e poda, com o discernimento que cada planta
requer, observando as estações e centrado na singularidade do organismo
vegetal. Sobretudo, o bom jardineiro é o amante da planta. Jamais será tão tolo
a ponto de querer doutriná-la com suas teorias e ideais, aceitando e admirando
a beleza da biodiversidade.
O bom jardineiro sabe que a
planta só necessita de um solo fecundo, crescendo por si mesma, já que é dotada
de um tropismo para ser o que é, buscando o que necessita no solo e
direcionando-se para a luz do sol.
O que seria de um jasmim se
forçado a ser como uma rosa?
Aqui, tocamos o coração da
tragédia de um modelo educacional distorcido e esclerosado, a serviço da
normóse que, infelizmente, é ainda dominante: a criança é forçada a ser o que
não é, por meio do fórceps de um currículo estreito e rígido e do instrumento
torturante da comparação.
Comparar uma criança com
outra ainda será considerado um crime, num futuro breve e mais saudável. Essa é
a gênese da perversão e da corrupção. Para conseguir aprovação, o estudante é
obrigado a jogar sua diferença e sua originalidade na lata do lixo, vendendo-se
por notas. Mais tarde, poderá se vender por outras notas...
É desolador ter que
reconhecer que, na horta de um horticultor qualquer, um pé de alface é muito
mais bem tratado do que nossas crianças estão sendo, nesse simulacro de escola.
O que pensaríamos de um horticultor que exigisse, de todas as suas diversas
hortaliças, o mesmo desempenho, o mesmo resultado?
Cada aprendiz necessita ser
respeitado na sua alteridade e no seu estilo próprio de aprender a aprender.
Numa escola saudável, o educador centra-se no aprendiz – e não num programa
rígido, massificador e castrador do brilho e da originalidade que emanam de
cada pessoa. 'Utopia!', esbravejarão alguns. Permito-me lembrar-lhes, então,
que utopia não é o irrealizável; é tão-somente o ainda não
realizado, aquilo para o qual ainda não existe espaço.
É tempo de educar educadores.
É tempo de ousar resgatar o espaço sagrado onde o aprendiz possa orientar seu
coração para aprender, sobretudo, a ser plenamente o que ele é. É tempo de
conspirar por uma educação não-normótica, centrada na totalidade. É tempo
de reconstruir o templo da inteireza.
Concluo com uma fala antiga
que aponta para a essência do que é educar:
'Aos quinze anos orientei o
meu coração para aprender. Aos trinta, plantei meus pés firmemente no chão. Aos
quarenta, não mais sofria de perplexidade. Aos cinqüenta, sabia quais eram os
preceitos do céu. Aos sessenta, eu os ouvia com ouvido dócil. Aos setenta, eu
podia seguir as indicações do meu próprio coração, pois o que eu desejava não
mais excedia as fronteiras da Justiça'. Confúcio (2.600 a.C.)
“Só a rede do amor pode fazer
frente à rede do terror. Podemos juntar nossas mentes e corações, dando-nos as
mãos, numa corrente de fraternidade, de confiança e de prece, para que a flor
possa brotar da dor, para que possamos renascer deste calvário coletivo, para
que não tarde a Luz no final dos escombros”.
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Roberto Crema, psicólogo e
antropólogo do Colégio Internacional dos Terapeutas, analista transacional
didata, criador do enfoque da Síntese Transacional. Mentor da Formação
Holística de Base da UNIPAZ. Diretor da Holos Brasil. Educador e autor de
vários livros, entre os quais 'Análise Transacional Centrada na Pessoa',
'Introdução à Visão Holística' e 'Saúde e Plenitude'. Vice-reitor da UNIPAZ.
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